Dá para ser muito feliz consumindo menos

110. Os saquinhos de supermercado e a Rio+20

Se quase ninguém está disposto a sair da zona de conforto, como faremos as mudanças de estilo de vida necessárias para criar uma sociedade sustentável?

Imagine que você está num bote com alguns amigos passeando no mar. De repente, começa a entrar água. Dentro do bote, um par de remos, um balde bem grande e vários copinhos. Dois dos tripulantes são fortes e sarados. Os demais têm físico frágil. Os fracotes se reúnem para reclamar que os fortões deveriam remar e tirar a água do barco, mas não querem ajudar. E os fortões se recusam a fazer o trabalho sozinhos. Todos naufragam.

Essa historinha absurda me vem à cabeça toda vez que ouço pessoas bradarem contra a resolução que eliminou as sacolinhas plásticas gratuitas dos supermercados e comemorarem sua volta.

Claro que existem problemas ambientais muito mais graves do que os saquinhos plásticos. Também têm certa razão os que acusam os supermercados de aproveitar a onda das sacolas retornáveis para obter vantagens financeiras. Já falei sobre isso nesse blog e recebi uma chuva de reclamações, que provavelmente virão novamente depois do capenga enredo de naufrágio que inventei. Só menciono as particularidades saquinho-plásticas porque o assunto aqui é sair da zona de conforto.

A insustentabilidade do sistema em que vivemos não é novidade. Infelizmente, o bom andamento da política e da economia por enquanto são aferidos pelo consumo crescente que não poderá se manter por muito mais tempo, pois só temos à disposição esse planeta finito e já superexplorado. Então as circunstâncias nos convidam a iniciar mudanças de hábitos. Quanto antes começarmos, menos traumáticas serão. Levar a sacola para o supermercado é apenas um ínfimo exemplo de como reduzir impactos ambientais. Comer menos carne, usar menos carro, comprar menos, reutilizar mais, abandonar a agricultura à base de agrotóxicos, economizar água e energia das mais diversas formas são outros desafios que estão batendo à porta.

Vem aí a Rio+20 e a torcida do contra já está organizada. Muitos a consideram inútil, já que países e empresas e não se mostram dispostos a rever seus modos de agir na intensidade necessária para frear as mudanças climáticas, a desertificação, o desmatamento, a extinção de espécies e a contaminação do meio ambiente. Embora com mínimas expectativas de ver surgir uma revolução sustentável no evento, discordo. Acho que o evento vale a pena sobretudo por causa do encontro paralelo e extraoficial, a Cúpula dos Povos.

Estive na Rio 92 como jornalista e a experiência foi maravilhosa (veja aqui: http://conectarcomunicacao.com.br/blog/106-eu-fui-na-rio-92/). Ao longo dos anos fiquei sabendo de dúzias de livros, projetos e movimentos que nasceram no Fórum Global (assim se chamou o encontro alternativo daquela vez) e ajudam cada vez mais gente a viver bem preservando o meio ambiente e reduzindo a desigualdade social. São essas iniciativas que me enchem de esperança. E não é preciso ir à Cidade Maravilhosa para entrar na onda.

Para terminar, um conto de fadas do nosso tempo:

“Era uma vez uma floresta em chamas. Os animais se reuniram numa clareira para reclamar e apenas o beija-flor não compareceu ao triste encontro. Em vez disso, voava freneticamente para lá e para cá. Sem entender o que estava acontecendo, o elefante perguntou:

– O que faz você aí, pequeno beija-flor?

– Estou tentando apagar o fogo. Vou até o rio, encho meu bico de água, despejo nas labaredas e volto ao rio para pegar mais água.

Todos os animais riram muito. E o rei leão disse:

– Você não se enxerga, beija-flor? Com esse bico minúsculo não vai conseguir apagar coisa nenhuma.

Mas o beija-flor já estava longe, apressado, pois tinha muito trabalho a fazer.”

PS – O indiano Jadav Payeng faz parte da turma dos beija-flores. Durante 30 anos ele plantou sozinho e com as próprias mãos uma floresta que hoje tem 550 hectares e abriga até grandes mamíferos em risco de extinção como tigres e rinocerontes. Olha só que beleza: http://planetativo.com/2010/2012/04/o-homem-que-plantou-uma-floresta-sozinho/

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5 Comments to 110. Os saquinhos de supermercado e a Rio+20

  1. thais mauad's Gravatar thais mauad
    30 de maio de 2012 at 21:30 | Permalink

    concordo plenamente com vc Claudia! A dificuldade da mudança de hábitos é a pior barreira que temos.

  2. 30 de maio de 2012 at 22:13 | Permalink

    As vezes leio um texto e fico pensando no que que eu aprendi… muitas vezes me conforme simplesmente por ter lido algo, assim melhoro meu português…
    Ao ler esse texto, Claudia, senti que faço parte desse grupo de beija flor e como tem trabalho pra ser feito…

  3. Carlos Eduardo's Gravatar Carlos Eduardo
    19 de junho de 2012 at 14:00 | Permalink

    Mudar os habitos todos nós deveriamos mudar, desde que tenhamos condições para isso. Eu por exemplo vou de carro, poluo com orgulho e colaboro para os engarrafamentos. Porque? Porque o governo a quem pago os caríssimos impostos não investe um real sequer na melhora do transporte coletivo. Experimente você ir na Estação Sé ou na Estação da Luz nos horários de pico… Há brigas por causa de lugares, as pessoas se espremem igual sardinha em lata e você já chega desmotivado no seu trabalho ou todo amarrotado para uma reunião ou entrevista. Os ônibus demoram hororres para passar nos pontos e quando passam, andam sempre superlotados, além de ser muito mais caro andar nos coletivos. Vou deixar de ter orgulho de poluir e de fazer parte de engarrafamentos, o dia que nossos governantes tratem a mobilidade urbana com seriedade e investimentos e não apenas em meias palavras.

  4. 1 de julho de 2012 at 17:14 | Permalink

    Muito bem colocado! A campanha das sacolinhas plásticas tem que continuar. As pessoas precisam entender que 1 sacolinha que vai para o lixo não vai fazer muita diferença, mas 600 sacolinhas vão. Este é o número de sacolinhas plásticas que eu consumia por ano…
    Agora, coloco tudo sem sacola no carrinho do supermercado e depois direto na mala do carro. Não demora nada colocar no carro ou passar depois para o carrinho do condomínio e deixo também umas duas caixas de papelão no carro para compras maiores.

    Levo sempre minha sacola de pano para fazer compras em lojas e na hora de dar presente, me conformo em aceitar a sacola de papel que espero que seja reciclada!

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