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111. Tempestade química em copo d’água

Sabesp envia relatório sem uma palavra sobre contaminação química enquanto pesquisador da Unicamp encontra remédios, agrotóxicos e cafeína na água de 16 capitais brasileiras. Tomei uma chuva de informações e vejam o que descobri até agora.

Há dois meses recebi pelo correio o “Relatório Anual de Qualidade da Água – 2011”. Três páginas lotadas de letras miúdas e tabelas cheias de numerinhos. Fui informada que, dos mananciais que abastecem São Paulo, a Guarapiranga está em pior condição. Ganhou a nota “Regular, com presença de esgotos domésticos”. Depois de tratar a água, a Sabesp a avalia em cinco pontos: turbidez, cor, cloro, flúor e coliformes. Quanto aos tais coliformes fecais (nome tão feio quanto seu significado), a água da Guarapiranga chega às residências com níveis por volta de 700 enquanto na melhor represa – Rio Grande – não passam de 3. Foi tudo o que consegui compreender, pois o relatório é, ao que parece, propositadamente enigmático para leigos.

Quer conferir o relatório da Sabesp com seus próprios olhos? Está aqui: http://site.sabesp.com.br/uploads/file/relatorios_qualidade_agua/Inf_Qualidade_quant_mar2012.pdf.  Quer saber qual manancial abastece a sua casa? É só digitar o CEP em http://www.mananciais.org.br/de-onde-vem-a-agua/.

Bom, se a questão dos coliformes já me incomodou, fiquei pior ainda ao descobrir a pesquisa coordenada pelo Professor Wilson Jardim, da Unicamp. Saiu na capa do Jornal da Unicamp: http://www.unicamp.br/unicamp/ju/527/pot%C3%A1vel-por%C3%A9m-contaminada?goback=%2Egde_148258_member_123438606 . Uma equipe de 25 cientistas avaliou a água ofertada em 16 capitais brasileiras colhendo amostras do cano de entrada das residências. Entre outras substâncias, encontraram vestígios de cafeína, atrazina (herbicida), fenolftaleína (laxante) e triclosan (substância presente em produtos de higiene pessoal). Ou seja, quando um manancial é contaminado por esgotos ou água proveniente de lavouras que recebem agrotóxicos, esses compostos químicos não são 100% eliminados pelo tratamento.

Essa informação não aparece no relatório da Sabesp porque agrotóxicos, remédios e substâncias químicas em geral são contaminantes não legislados. Ou seja, as normas simplesmente os ignoram e ainda não foi estabelecido um limite legal para sua presença na água. Um item que tem preocupado especialmente os pesquisadores é o hormônio feminino proveniente da urina de mulheres que tomam pílula anticoncepcional (mais detalhes aqui: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-impacto-do-filho-evitado-,889291,0.htm).

Com essa preocupação na cabeça, entrei no site da Sabesp e questionei a presença dos “contaminantes emergentes” (esse é o nome técnico). A resposta que recebi: “Prezada Senhora Claudia, em resposta à sua manifestação, informamos que o relatório da Sabesp só apresentou os parâmetros estabelecidos pelo Ministério da Saúde, pois não foi constatado nenhum tipo de contaminação dos mananciais. Como esclarecimento adicional, informamos também que nenhum país controla os produtos mencionados pelo Prof Wilson Jardim, visto que ainda não foi comprovado que estes sejam tóxicos ao ser humano”.

Do alto da minha ignorância em química e biologia, achei a argumentação cientificamente incorreta. Razão nº 1: o fato desses contaminantes comprometerem a vida aquática já seria motivo suficiente para controlá-los. Não só nos alimentamos de peixes & cia como outras espécies são indicadores importantes de riscos para os seres humanos. Não é por isso que remédios e cosméticos são testados em animais? Razão nº 2: Se não há prova de que as substâncias químicas da água da Sabesp são tóxicas aos seres humanos, muito menos evidências existem de que sejam totalmente seguras. Pelo princípio da precaução, atitudes deveriam ser tomadas.

Ao que parece, um dos principais toxicologistas do mundo concorda com a minha opinião. Em 25/6 fui à Cetesb assistir à palestra do norte-americano Tracy Collier, da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), que estuda o assunto há 40 anos. Olha só o título: “Impacto na saúde humana e nos ecossistemas dos contaminantes químicos em sistemas aquáticos – avaliação e gerenciamento de riscos”.

Alguns dados interessantes que o Dr. Collier divulgou:
• Depois de casos terríveis de contaminação aquática, há cerca de 50 anos os Estados Unidos endureceram a legislação ambiental das indústrias, que passaram a ter seus efluentes controlados. O maior problema hoje é a contaminação difusa, proveniente de esgoto doméstico, fazendas (não orgânicas) e vias pavimentadas.
• 30.000 diferentes compostos químicos são colocados em todo tipo de produto, de bateria de carro a biscoito de chocolate. Desses, apenas 4% são analisados rotineiramente e cerca de 400 são persistentes (não se desintegram no meio ambiente). 75% nunca tiveram seus efeitos colaterais estudados. Em contato umas com as outras, essas substâncias podem potencializar mutuamente seus efeitos ou formar outras descontroladamente.
• Na costa oeste dos Estados Unidos já são encontrados peixes com bactérias resistentes a antibióticos. Ou seja, tiveram contato com remédios que chegaram até lá pelo esgoto. Além disso, em alguns locais 90% dos peixes têm câncer de fígado.

Recado final do cientista: “Não podemos esperar para ter certeza de que esses contaminantes são prejudiciais. É preciso começar a agir já”.

A turma do deixa-disso ambiental costuma se defender dizendo que os resíduos químicos da água aparecem em quantidades muito pequenas. No entanto, ninguém comenta que esses contaminantes estão por toda parte além da água: no ar, na comida, nos produtos de limpeza, nos cosméticos, nos tecidos, em todos os plásticos e por aí vai. Não se faz as contas incluindo tudo que um ser humano entra em contato e nem a interação entre as substâncias.

Por trás desse cenário de abundância de produtos e escassez de conhecimento temos o fato da ciência também se constituir como um mercado de trabalho, sendo que as empresas (e não os institutos públicos ou independentes) oferecem os melhores salários. Assim, de um lado corporações se empenham em criar novas substâncias e patenteá-las para aumentar seus lucros. Do outro, centros de pesquisa lutam contra a eterna falta de verbas. Está explicado por que 30.000 substâncias pouco conhecidas povoam as gôndolas enquanto raríssimas pesquisas procuram entender se nossa saúde corre risco?

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3 Comments to 111. Tempestade química em copo d’água

  1. luciana camuzzo's Gravatar luciana camuzzo
    2 de julho de 2012 at 0:21 | Permalink

    Claudi, virei meu computador no avesso para descobrir onde tinha salvo este video. Ele fala sobre a Portaria da Potabilidade da Água. É assustador.
    http://muralvirtual-educaoambiental.blogspot.com.br/2011/12/que-agua-estamos-bebendo.html?spref=fb

  2. Ana Lúcia Silva's Gravatar Ana Lúcia Silva
    18 de outubro de 2013 at 17:21 | Permalink

    O Dr. Jardim não divulga junto aos dados que ele trouxe que os testes para avaliar se existem efeitos para essas substâncias que ele teria encontrado, são perigosos a saúde. E a resposta é não, conforme ele mesmo publicou em uma revista internacional e cujo artigo, se você quiser ler, é só pagar a taxa. Mas tem o resumo, basta dar uma olhada. Ele também esquece de dizer ou associar pesquisas sobre essas mesmas substâncias que estão na água, inclusive agrotóxicos, que estão no ar, mesmo das grandes metrópoles, em concentrações elevadíssimas. Ou seja, algumas pessoas acham que precisam de uma bolha para viver. Gente, acorda! Até no útero materno já são detectadas substâncias que estão nos alimentos, mesmo após lavados, cozidos, etc. O tuperware que você guarda suas verduras passa substâncias contidas na composição plastica, o cafezinho que você toma tem substâncias poliméricas do copinho… Acordem!!! A água é um solvente universal, água potável não é água destilada que não tem substância alguma… e mesmo que tivesse. Vamos ser observadores da realidade sem sermos sonhadores. Sejamos realistas. Ou então, vamos comprar ar puro a 99,9999% e viver numa bolha! Artigo: An integrated approach to evaluate emerging contaminants in drinking water
    Wilson F. Jardim a, Cassiana C. Montagner a, Igor C. Pescara a, Gisela A. Umbuzeiro b,c,
    Ana Marcela Di Dea Bergamasco c, Melanie L. Eldridge d, Fernando F. Sodré e,
    Revista: Separation and Purification Technology 84 (2012) 3–8

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