Dá para ser muito feliz consumindo menos

121. Comida de verdade, tempo e lugar

Vamos respeitar a safra dos alimentos, dar preferência àqueles que foram produzidos na região e cozinhar com ingredientes frescos (se possível, orgânicos)?

Décadas atrás, deixamos de ver o almoço crescer, ciscar e pastar no quintal ou num sítio a poucos quilômetros de casa. Pouco a pouco, fomos esquecendo que a comida nasce da terra e passamos a achar que seu berço é aquela embalagem de isopor, plástico ou metal na gôndola do supermercado. Daí a desconsiderar totalmente que os alimentos têm safra foi um pulo.

Mas comida de verdade* continua com tempo certo de aparecer. E de desaparecer. Se conseguirmos reaprender isso, comeremos melhor e deixaremos de pressionar a agroindústria para fazer malabarismos que só prejudicam nossa saúde e a saúde do planeta. Isso porque forçar uma planta a dar frutos fora da época em geral significa usar mais adubos químicos, mais agrotóxicos, abrir mão de parte do sabor e dos nutrientes. Ou então implica em consumir algo produzido do outro lado do mundo e que veio até nós jogando muita fumaça na atmosfera, além, é claro, do desperdício aumentar exponencialmente com tantas milhas a percorrer entre o campo e a mesa.

Intuitivamente ainda temos uma noção da época de cada alimento. Abacaxi e manga são frutas de verão. Morango e tangerina, de inverno. Puxando pela memória e conversando com os mais velhos dá para redescobrir a sazonalidade (para facilitar, no blog da Nadia Cozzi tem a lista dos alimentos de outono: http://alimentopuro.blogspot.com.br/2013/04/frutas-e-hortalicas-de-outono-em-todo-o.html).

Então fica o convite para desprezar as embalagens coloridas dos milhares de produtos alimentícios industrializados feitos basicamente de açúcar, sal, farinha, gordura ruim, leite de má qualidade e carnes idem, soja e milho transgênicos. Em vez disso, que tal cozinhar com ingredientes orgânicos da safra? De preferência vindos de perto, o mais perto possível. Quem sabe da horta no quintal ou na esquina…

Com esse cenário ecogastronômico perfeito na cabeça, dia 14/3 entrei no supermercado Pão de Açúcar da Praça Panamericana, zona oeste de São Paulo. (Antes de continuar a história, uma explicação: evito os supermercados encomendando orgânicos que são entregues em casa. Mas nem tudo consigo desse modo, então de vez em quando lá vou eu empurrar o carrinho nos corredores cheios de tranqueira). Bom, naquele dia específico chamou minha atenção um monte de camarão fresco na barraca do peixe, em pleno período do defeso do camarão nas regiões Sul e Sudeste do país. Esse tal defeso é a resposta do setor pesqueiro à Instrução Normativa 189/2008 do Ibama que proíbe a captura do crustáceo de 1º de março a 31 de maio para que a espécie possa se reproduzir (http://www.ibama.gov.br/publicadas/comeca-hoje-defeso-do-camarao-no-sul-e-sudeste).

Resolvi falar sobre o defeso com o atendente dos pescados e ele disse que os camarões dali eram de cativeiro então estavam liberados. Pedi para ver a documentação. “Está lá em cima no escritório e demora para pegar” foi a resposta. Como tinha pressa (estou sempre com pressa), fui embora. Liguei para o SAC da empresa, que informou o assunto ser da alçada do gerente da loja, mas forneceu um número de protocolo (6538942) e a promessa de entrar em contato novamente. O que não ocorreu. Passaram-se duas semanas. Fui na loja outra vez e falei com a gerente que disse que a empresa enviou um comunicado interno esclarecendo sobre o defeso e falando que os camarões são de cativeiro blá-blá-blá. Pedi para ver o documento. Ela pegou meu cartão e disse que ia retornar. Uns 10 dias depois recebi um e-mail com um anexo explicando que o camarão cinza vendido naquela loja provem de fazendas de cultivo na costa do Piauí. No entanto, a loja estava vendendo mais tipos de camarão fresco, descritos como “rosa”, “grande” e outros nomes. Questionei e a funcionária não sabia o que responder. Disse que ia se informar e retornaria. Estou esperando até agora…

De qualquer modo, toda essa história de fazendas marinhas é questionável do ponto de vista socioambiental e o movimento Slow Food vem fazendo um trabalho bacana de levantar a cortina que esconde os bastidores nada apetitosos desses empreendimentos http://www.slowfoodbrasil.com/slowfish/peixe-limpo/bem-cultivado. E, no mínimo, é bem estranho ter camarão fresco vindo do Piauí num supermercado de São Paulo. Deve chegar de avião, o que já aumenta muito sua pegada de carbono.

Acho que o defeso do camarão, assim como a época da safra das frutas, verduras e legumes deveriam ser anunciados com  cartazes gritantes em todos os mercados, feiras e restaurantes. “Não estamos vendendo camarão fresco porque está na época do defeso”. “Teremos figo novamente apenas em agosto. Aproveite as tangerinas”. “Lichia? Só perto do Natal”.  “Mês que vem começa a safra da couve-flor”.  Já pensou?

* PS – Comida de verdade são aquelas coisas vivas, sem logotipo, que apodrecem a têm nomes simples como abacate, brócolis, cogumelo, ovo e rabanete.  O resto é produto alimentício ou, como diz um amigo, antialimento.

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2 Comments to 121. Comida de verdade, tempo e lugar

  1. Adriana Agabiti's Gravatar Adriana Agabiti
    2 de maio de 2013 at 11:14 | Permalink

    Me sinto identificada e muito grata por sua atitude. Promover a consciência na alimentação é urgente! Temos que voltar à raiz, aos fundamentos (como disse Rudolf Steiner nos “Fundamentos da Agricultura Biodinâmica”) para trazer dignidade ao produtor orgânico.
    Eu planto orgânicos e faço alguma distribuição e sinto que as pessoas admitem pagar pela indústria mas ninguém paga pela terra e pelo produtor direto.

  2. 21 de outubro de 2013 at 23:06 | Permalink

    Ola estamos vivendo um momento de restauração em nossa alimentação em congregação em Sao Bernardo Do Campo e gostaria de saber como faço pra ter uma palestra por aqui.

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