Dá para ser muito feliz consumindo menos

125. Vida louca, vida linda

Parece que toda a diversidade humana resolveu visitar a solitária jardineira que cuidava de uma horta na Avenida Paulista em plena terça-feira à tarde.  

Por causa do post anterior, teve gente perguntando se eu ia fechar o blog ou estava com algum problema sério. Nada disso. É que as manifestações de junho trouxeram tanta cacofonia de opiniões que resolvi ficar quieta um pouco.

Para falar a verdade, ultimamente tenho me dedicado mais à agricultura do que à escrita. Descobri que, empunhando a enxada, a gente aprecia o mundo de outra forma, assim como provoca reações diferentes. Sobretudo se a roça em questão fica no canteiro central da Avenida Paulista entre a Consolação e a Bela Cintra: a Praça do Ciclista. Ali, ponto dos mais muvucados na megalópole insana, existe uma horta comunitária desde 12 de outubro de 2012. Trata-se do frágil jardim comestível que, no entanto, já sobreviveu ao Réveillon, à Parada Gay, à guerra entre manifestantes e polícia nos momentos mais tensos dos protestos de junho e a muitos outros encontros de multidões reivindicadoras e anárquicas. Além de cotidianamente servir de abrigo noturno para moradores de rua. Pois bem, a horta nunca foi pisoteada. E a praça ficou muito mais limpa depois que ela chegou.

Um pequeno grupo de voluntários, do qual faço parte, se reveza na manutenção diária. E no primeiro domingo do mês a partir do meio dia acontecem os mutirões, onde nos encontramos para dar um trato mais caprichado na microlavoura e confraternizar.

Hoje, 16 de julho de 2013, uma terça feira qualquer e quase milagrosamente calma, foi a minha vez de cuidar da Horta do Ciclista (http://pt.wikiversity.org/wiki/Horta_do_Ciclista).  Ver a cara das pessoas quando a gente atravessa a Paulista carregando esterco e enxada já vale o programa. Mas o melhor veio depois. Na chegada conversei com uma mineira sorridente que nunca tinha ouvido falar em horta comunitária e ficou maravilhada porque qualquer um pode colher. E pode mesmo! Os manjericões, por exemplo, estão lindos e precisando de uma poda radical. Isso significa que a matéria prima para um belo pesto está ali esperando o cozinheiro aparecer. Vc se habilita?

Enquanto adubava os canteiros, skatistas arrepiavam no cimento. Aí passou um ciclista com máscara antipoluição perguntando se pode plantar cannabis (expliquei que não, pois pode dar rolo e inviabilizar todo o projeto). Mãe e filha sentaram na mureta em clima de contemplação e a três metros dali se acomodou um casal meio punk aos amassos. Quando eles foram embora apareceram duas meninas para fumar cannabis e ofereceram. Agradeci a gentileza, mas declinei alegando estar no serviço. Depois veio um cara oferecendo muda de ora-pro-nobis (recusei porque a planta fica muito grande e é espinhuda demais para uma horta tão pequena). Então ele respondeu que volta lá alguma hora para plantar um lance parecido com malva que não guardei o nome. Uma velhinha investigou várias plantas com cara de conhecedora de horticultura, mas se mandou sem conversa.

Fui até o estacionamento em frente preparar a rega. Essa horta, aliás, só existe graças à boa vontade dos manobristas, que armazenam nosso equipamento em seu minúsculo banheiro (dois baldes, um regador e uma enxada) e ainda liberam a água. Ao destrancar a torneira, a caixa do estacionamento explicou que os noias vão lá toda hora pedir para tomar banho de esguicho. Enquanto isso, a delegação de jovens de Milão que vieram ao Brasil encontrar o Papa Francisco passou cantando e com bandeiras imensas da Itália. Ao mesmo tempo, uma manifestação de um monte de gente vestida de branco (depois descobri que eram médicos querendo garantir a reserva de mercado) fechava a Rua da Consolação.

Luciano Santos, advogado que tem escritório em frente e é um dos principais guardiões da horta, adentrou portando terno e gravata para a gente trocar uma ideia sobre como lidar com as lagartas do maracujá. Sim, em breve teremos borboletas nativas! Atravessei a rua umas 10 vezes carregando água, reguei tudo e missão cumprida. De carro na Paulista vi pelo retrovisor um grupinho PMs circundando uma motociclista acidentada cinco metros atrás. Ela levantou e sacudiu a poeira (ufa, nada grave).

Só mesmo a necessidade de carregar sacos e sacos de adubo me convence a ir dirigindo para a avenida mais famosa da cidade.  E enquanto aguentava o trânsito na volta, só conseguia pensar na loucura e maravilha que é o mundo. Não fiz foto porque sou uma das únicas pessoas desse universo que não anda por aí com máquina e não consegue tirar foto com o celular. A que ilustra o post é dessa horta mágica, alguns meses atrás.

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