Dá para ser muito feliz consumindo menos

132. SP Zona Rural

 

Sítio Oyama: floresta, lavoura e nascentes

Vistoria participativa da Agricultura Limpa

A visita a um agricultor de Parelheiros e as muitas ameaças que o último refúgio de lavoura e floresta em São Paulo está enfrentando.

Moro em São Paulo desde que nasci e não conhecia Parelheiros. Voltei de lá com a sensação de que estive em outro mundo. 

Nas lonjuras ainda verdes do extremo sul de São Paulo existem cerca de 400 agricultores. Apenas 30 são orgânicos ou estão em processo de transição (os outros continuam jogando agrotóxico em plantações próximas às represas). Essa turminha assinou o Protocolo Guarapiranga, fundou a Cooperativa Agroecológica dos Produtores Rurais e de Água Limpa da Região Sul de São Paulo, mais conhecida como Cooperapas, e criou uma Organização de Controle Social (OCS) para a autofiscalização. Eles oferecem suas hortaliças sem veneno nas feiras orgânicas da Água Branca, Modelódromo (próximo ao Parque do Ibirapuera) e Parque Burle Marx. E, o mais importante, são os defensores de nossas águas.

Para garantir a qualidade do cultivo agroecológico, é necessário que o poder público e os consumidores fiscalizem. Aí que eu e alguns colegas entusiasmados com a importância de incentivar a agricultura limpa entramos: ajudando a vistoriar a lavoura. Embarquei nesse programa por causa do Henrique Paulo, horteleiro de quintal como eu. Ele é o cara que está articulando a ponte entre a turma das hortas comunitárias de SP e os agricultores ecológicos profissionais da cidade.  Um trabalho voluntário muito lindo. Estava conosco também a Fabíola Donadello, que tem mãos de fada para germinar sementes e levou para a ZR paulistana mudas que fez brotar em sua casa no Sumaré.   

Visitamos o Sítio Oyama, que produz umas 30 espécies de hortaliças inclusive algumas raras como berinjela japonesa (bem escura e fininha). No sítio rolou um encontro alegre e muito produtivo entre vários produtores de Parelheiros, alguns funcionários nota 10 da prefeitura e nós, os consumidores. Adorei conhecer as agricultoras Valéria Marcoratto, Vânia dos Santos, Maria José Kunikawa, Cida Oshi e Massue Shirasawa. Alguns dias depois estive na feira do Parque Burle Marx, comprei umas coisinhas deliciosas na barraca da família Shirasawa e encontrei o simpático Cícero, filho da Massue. É outra coisa levar para casa verduras entregues pelo próprio produtor e ainda por cima vindas de um local que a gente conhece!

Bom, voltando a Parelheiros, nosso encontro começou com uma feirinha de troca de sementes e em seguida a pauta da reunião foi cumprida rigorosamente e registrada em ata. Aí veio a vistoria. Com o maior orgulho, Ernesto Oyama mostrou os dois hectares onde família vive há 70 anos, quando o avô instalou ali uma granja. Em 2010 abandonaram os agrotóxicos e pouco a pouco estão se aperfeiçoando nas técnicas orgânicas. As sementeiras ficam à sombra de cerejeiras que fazem lembrar as origens nipônicas. Tem bastante mata nativa em volta dos campos cultivados e o córrego de água cristalina que brota da floresta é suficiente para regar. Tudo cultivado com o maior amor apenas pelo Ernesto e seus pais. O encontro terminou com um delicioso almoço caipiro-japonês que a Dona Tereza, mãe do Ernesto, preparou. Sentamos no terraço, ao lado de um tanque com carpas. Olhando toda aquela beleza, achei possível São Paulo um dia se tornar cenário de sonho.

Mas a situação atual de Parelheiros está mais para prenúncio de pesadelo e todos os 20 milhões de habitantes da megalópole deveriam estar muito preocupados com isso. Os problemas são os seguintes:

  1. Como já citado, são centenas de agricultores jogando agrotóxicos perto das represas. De lá para nosso copo e nossa panela é um pulo. Ou melhor, um cano.
  2. A região está sob forte pressão imobiliária. Enquanto o novo Plano Diretor, em vias de ser aprovado, tenta requalificar a área como rural, grupos se articulam para invasões de terra, criação de novos condomínios e conjuntos de prédios que fatalmente reduzirão a água disponível para a cidade e ainda por cima despejarão esgoto nos mananciais.
  3. Há um malfadado projeto de aeroporto na área, o que aumentaria o incentivo ao desmatamento, além de prejudicar a flora e fauna local.
  4. Se a região sul de São Paulo perder o verde, acabou de vez o cinturão florestal da cidade. Com isso, as nascentes de água diminuirão na proporção inversa do aumento de temperatura,  secura e poluição. Ou seja, viveremos literalmente num deserto.

O que fazer para impedir essa desgraça? Só pensava nisso durante o trajeto de volta. Saí do sítio do Ernesto por uma bucólica estradinha de cascalho cercada por floresta, peguei a Av. Senador Teotônio Vilela (ainda com bons nacos de verde em volta) e entrei no bairro cinza do Grajaú, onde peguei o trem sentido Osasco que corre ao lado do degradadíssimo Rio Pinheiros. Na estação que tem o nome do rio recuperei minha bicicleta e voltei pedalando para casa sem descobrir a resposta.

(As visitas aos sítios de Parelheiros acontecem todo mês. O ideal é ter 4 ou 5 consumidores acompanhando por vez. Qualquer pessoa pode participar e eu recomendo.)


 

 

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2 Comments to 132. SP Zona Rural

  1. Cesar's Gravatar Cesar
    25 de fevereiro de 2014 at 16:08 | Permalink

    Olá Claudia, obrigado por trazer esse conhecimento novo para mim por meio desse texto! a pergunta que você fez(“O que fazer para impedir essa desgraça? “) foi a mesma que eu me perguntei… Acho que a divulgação é muito importante para conscientizar as pessoas, ou seja, esse texto já tem um grande valor( pelo menos é o que eu acho..)
    Gostaria de saber se pode me informar como faço para visitar os sítios.
    Obrigado!

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