Dá para ser muito feliz consumindo menos

138. Cada gota importa

Resolvi compartilhar as medidas de economia de água do meu cotidiano. Sim, algumas demandam tempo e disposição. Não, não estou sugerindo que todos sigam as instruções. Coloquei minha privacidade aquática em segundo plano pensando em colaborar com o esforço de guerra que no momento se faz necessário. Dispenso as piadas e o rótulo de xiita. Obrigada pela compreensão.  

Quando se fala em educação ambiental o que vem à cabeça geralmente é uma criança pequena regando uma plantinha. Só que, nas minhas andanças por aí, percebo que são os adultos que mais precisam de aulas desse tipo. A começar por nossos governantes, quase todos analfabetos ambientais (além de irresponsáveis). No ano passado, é importante lembrar, nossa presidenta abaixou as tarifas elétricas para estimular o consumo e, consequentemente, a vazão das represas. Já no âmbito estadual os desmandos com os mananciais talvez sejam mais numerosos do que os grãos de areia do Saara. E enquanto a água baixava silenciosamente, a sociedade fingia não escutar os gritos de socorro dos “ecochatos”. Quem tiver interesse em mergulhar em contexto e perspectivas dessa catástrofe anunciada, há algumas semanas publiquei o “Dossiê Crise da Água” (http://conectarcomunicacao.com.br/blog/135-dossi-crise-da-gua/).

Só que no momento atual, analisar o cenário e reclamar é pouco, embora a participação no debate político sobre o tema seja importantíssima. Sabemos que a tubulação da Sabesp tem muito vazamento e que o governo não pode fugir do papel de principal responsável pela crise. Mesmo assim, agora cabe a todos economizar cada gota e torcer por chuvas generosas na próxima temporada, pois se tivermos mais uma primavera e verão desérticos, experimentaremos em 3D e 5 S (sentidos) as emoções de um filme-catástrofe.   

Há anos venho aprimorando atitudes domésticas para diminuir o consumo de água em casa. Nos últimos meses o gasto mensal da família (4 pessoas, um cachorro e uma horta) estabilizou em 7m3, o que faz a conta d’água ficar em torno de R$ 20. Ainda não tenho sistema de captação de água da chuva e de tratamento doméstico de efluentes, sonhos de consumo que espero um dia alcançar. Como o hardware arquitetônico por aqui é padrão, o que faz a diferença é o software do comportamento humano. Essas são algumas medidas de economia de água do meu cotidiano:  

PRINCÍPIOS GERAIS
* Antes de abrir uma torneira lembrar que a água é a fonte da vida e deve ser reverenciada mesmo quando abundante. Perguntar-se: preciso mesmo de água tratada e potável para o que pretendo fazer? Será que eu consigo atender a essa minha necessidade reutilizando água?
* Lembrar que todo líquido que escoa pelo ralo vai para o esgoto. Perguntar-se: a água que acabei de usar precisa mesmo ir para o esgoto? Será que eu consigo armazená-la para um uso futuro?

NO BANHEIRO
* Colocar um balde embaixo do chuveiro para recolher aquela água que cai antes de esquentar. Usar essa água para lavar roupas ou regar as plantas.
* Deixar a vazão do chuveiro bem pequena.
* Colocar uma bacia grande de alumínio dentro do box e ficar dentro dela durante o banho. Posteriormente usar essa água com sabão para a descarga. Isso ajuda também a controlar o tempo da autolavagem: quando a bacia está cheia, acabou!
* Escovar os dentes com mínima quantidade de água. Não costumo usar copo, mas é um bom jeito de controlar. Meu método: colocar uma pequena bacia na pia para reaproveitar tanto a água da escovação quanto a de lavar as mãos. Essa água vai para o balde da descarga. 

NA COZINHA
* Colecionar água com vestígios de cerveja, açúcar, farinha, frutas, legumes e tudo que não seja muito oleoso. Os recipientes vão sendo pré-lavados e as plantas recebem regas vitaminadas. Às vezes deixo um balde ao lado da pia para ir recolhendo essas pequenas quantidades de água que no final do dia serão incorporadas à rega.
* Limpar bem toda a louça antes de lavar. Um pouco da água quente usada para cozinhar macarrão ou alguma outra água de reserva do cozimento ajuda. Depois de molhar a louça, pego algumas folhas de boldo da horta e esfrego nos pratos e panelas. A crosta de sujeira vai embora e as folhas vão para a composteira. Toda a água da pré-lavagem serve para regar o  jardim.
* Guardar os bagaços de limão e laranja na geladeira para esfregar nos pratos, travessas, frigideiras e panelas que estão muuuuito engordurados.
* Lavar as mãos com uma bacia embaixo e depois reutilizar a água.
* Lavar frutas, verduras e legumes usando a bacia.
* Cada pessoa da família usa sempre o mesmo copo para beber água e ele é lavado apenas uma vez por dia.
*Aposentar a máquina de lavar-louças. Nenhuma dá conta dos resquícios de um jantar inteiro com cerca de 10 litros (que serão inteiramente reutilizados) como no método da bacia.

EM FRENTE AO ESPELHO
* Planejar-se para o uso racional de roupas: nada de enviar para a lavagem várias trocas por dia.

NA LAVANDERIA
* Lavar roupas usando bacias e deixar a máquina apenas para centrifugar entre cada fase (lavagem, 1º enxágue e 2º enxágue). O conteúdo de cada bacia pode ser reutilizado. Inicio com lençóis, toalhas e roupas brancas. Como não uso alvejante e a limpeza é só com sabão de coco, a água fervente é necessária para essa categoria. No final do processo essa água pode ir para a descarga, limpeza do quintal, de carro e outros usos menos nobres. A princípio parece confuso e complicado, mas vai ficando simples com o tempo. Brincar de lavadeira de antigamente está longe de ser um sacrifício para mim: é divertido, terapêutico e meditativo, eu garanto.

DA PORTA PARA FORA
*Calçada e garagem não precisam de banho. Basta varrer. Se tiver cocô e xixi de cachorro, um balde apenas no local resolve. Aquela água recolhida na bacia debaixo do chuveiro funciona bem para isso.
* Reduzir as áreas externas pavimentadas. Onde tem jardim não precisa esfregar o chão. E no jardim puramente ornamental vale a pena colocar espécies mais resistentes, que serão regadas apenas pela chuva.
* Lavar carro não é prioridade. O meu lavo uma vez por ano mais ou menos, com dois ou três baldes de água de reúso. Para quem não quer ser tão radical, uma vez a cada dois meses acho que está bom. Jamais usando o esguicho.


PARA TERMINAR, UMA PALAVRINHA SOBRE EMPREGADOS DOMÉSTICOS
O Brasil é um país esquisito onde boa parte da população jamais limpou o próprio banheiro. Onde existe a crença de que esse serviço é repugnante, mas existe um tipo especial de pessoa que não sente nojo nem se importa em fazê-lo: a empregada doméstica. Mas aí essa categoria profissional costuma ser acusada de desperdício de água e de produtos de limpeza. Será que as cachoeiras espumantes não são uma estratégia para driblar a aversão?

Não estou criticando ninguém, até porque alguns anos atrás eu estava no time das patroas e em minha casa havia uma mensalista que se encarregava de praticamente todo o serviço doméstico. Mas mudei de vida e passei a encarar a vassoura e o tanque com maior frequência. Ainda conto com a inestimável ajuda de uma faxineira, mas as tarefas são divididas entre eu e ela. No primeiro mês pós-demissão da antiga empregada, a conta de água veio 6 mil litros menor. Não a culpo.

 

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5 Comments to 138. Cada gota importa

  1. 17 de outubro de 2014 at 16:38 | Permalink

    Adorei, você foi longe! Muito melhor que o rame rame das dicas da Sabesp!

  2. Paulo's Gravatar Paulo
    17 de novembro de 2014 at 10:53 | Permalink

    Parabéns pelas dicas e, principalmente, pela iniciativa e seus exemplos.

  3. 30 de janeiro de 2015 at 7:16 | Permalink

    Você realmente colocou sua privacidade aquática em 2º plano! rsrs. Como diz nosso Israel: parabéns! Vou usar esse material por aí afora e darei crédito.

  4. 30 de janeiro de 2015 at 20:58 | Permalink

    Muito, muito obrigado pelo exemplo!
    Estamos seguindo……

  5. 5 de março de 2015 at 14:15 | Permalink

    Adorei o artigo! Isso vale desde sempre mas sempre foi considerado conversa de ecochato. A crise provou que os ecochatos tinham razão.
    Na lavagem da louça, costumo usar o borrifador com uma solução caseira de limpeza após limpar os pratos com papel absorvente. Depois ponho a louça numa bacia com água para enxaguar. A água de enxágue é reaproveitada em minha amada microhorta.
    Só lavo minha roupa em baldes e reaproveito a água ensaboada e a de enxágue. Prefiro comprar roupas fáceis de lavar, que sequem rápido e que não precisem ser passadas. Temos que reaprender a viver sem desperdício. Parabéns pelo texto!

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