Dá para ser muito feliz consumindo menos

15. O brinquedo preferido

Ter centenas de brinquedos não faz bem para as crianças. Reduzir a oferta de presentes é a melhor forma de estimular os pequenos a brincar melhor.

Está na internet o documentário “Criança, a Alma do Negócio”, de Estela Renner. Vale a pena assistir, principalmente nessa época de Natal. É um panorama muito interessante da relação que as crianças têm com a mídia e o consumo hoje em dia. Um dos trechos de que mais gosto mostra um menino de mais ou menos sete anos exibindo com orgulho seu armário atulhado de brinquedos. Aí a entrevistadora pergunta qual o favorito entre todos aqueles. O garoto tira do bolso um bonequinho de plástico muito simples, menor do que seu dedo polegar e diz: “Esse aqui!”.

Quando vi a cena, lembrei de uma coisa que costuma dizer a Lídia Aratangy (psicóloga, escritora, mãe e avó de mão cheia, de quem sou fã). Vou tentar repetir mais ou menos: “O que importa não é tanto o brinquedo, mas sobretudo o vínculo de afeto que a criança estabelece com ele. E nenhuma criança consegue se ligar emocionalmente a 100 brinquedos”.

Na convivência com meus filhos e os amigos deles, tenho observado que a quantidade objetos que possuem é gigantesca. Mas há menos brincadeiras. Quase não rola faz-de-conta, pega-pega, esconde-esconde, cavalinho com cabo de vassoura, banho de esguicho no quintal e atividades do gênero. Talvez por falta de tempo, de iniciativa e até por preguiça. Talvez porque os programas de TV, os videogames, os DSs e os computadores tenham se tornado tão sedutores e estejam disponíveis o tempo todo. Uma pena.

Ao despejar tantas coisas sobre as crianças, nós, adultos, roubamos deles a oportunidade de querer ardentemente e batalhar pela realização de um desejo. Pediu, ganhou! Extinguiu-se o tempo da saudável expectativa ansiosa.

Parece até que eu estou propondo algum tipo de tortura anticonsumista para a garotada, mas é justamente o oposto. Criar expectativa e regular a quantidade de presentes vale a pena. Mesmo. Penso nisso toda vez que vejo minha filha agarrada e batendo altos papos com seu brinquedo preferido, uma tigrinha de pelúcia chamada Lili. Julieta tem uns 30 outros bichos do gênero, a maioria desprezada, empoeirando na estante. Mas Lili é especial: tem uma casa de caixas de papelão e enfeites montada ao lado da cama de sua “mãe” e viaja conosco para todos os lugares.

A tal Lili é daqueles bichos customizáveis, vendidos em quiosques de alguns shoppings, com direito a roupas e acessórios personalizados. Há vários meses, a filhota manifestou a vontade de ter esse brinquedo. Dissemos que ela só ganharia no aniversário (em junho) e minha mãe se prontificou a oferecê-lo. Só que, no dia tão esperado, a loja teve um problema e fechou minutos antes de avó e neta chegarem. Ansiosa como toda criança, Julieta não quis voltar para casa de mãos abanando e trocou o objeto do desejo por outra coisa. No dia seguinte, percebeu o erro e pediu novamente a pelúcia tão sonhada. “Só no Dia das Crianças”, respondemos. Então, em outubro, bastante tempo depois de formulado, o desejo virou realidade. Nada foi feito de propósito, mas o resultado é que Julieta ama Lili acima de todo o pelotão de Barbies e congêneres que povoam seu quarto. Outro dia, uma amiguinha dela, que possui meia dúzia de primos da Lili, feitos na mesma loja, achou estranhou tamanha predileção e comentou: “Julieta, não entendo porque você adora tanto essa Lili!”. Eu entendo.

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