Dá para ser muito feliz consumindo menos

153. 13 sugestões para hortas escolares

A boa notícia é que as escolas querem hortas. Só que não é tão fácil assim fazer um projeto relevante. Para tentar ajudar, escrevi esse post. Ainda me considero uma agricultora pouco experiente, mas já dá para compartilhar o que tenho aprendido nos últimos anos sobre cultivo de alimentos e ativismo coletivo.

Bom, esse é um post aberto. Por favor dê sugestões e escreva suas dúvidas que aos poucos vamos completando e aperfeiçoando o roteiro da horta escolar, está bom?

1. Responder 2 perguntas -  Por que fazer uma horta na escola? Como a horta vai se relacionar com as atividades pedagógicas e comunitárias da escola? É legal responder por escrito e coletivamente (todos que participarão do projeto). Reler e atualizar de vez em quando.

2. Começar fazendo – Cuidar de uma horta é que nem cozinhar, andar de bicicleta, ter um cachorro, educar um filho. Estudar e planejar antes ajuda, mas a prática costuma ser bem diferente do que foi imaginado. Então coloque logo a mão na terra e comece pequeno. Alguns vasos ou um metro quadrado de chão já é o suficiente para iniciar. Sem nunca ter plantado nada, a gente não sabe nem fazer as perguntas.

3. Iniciar o aprendizado pelos adultos –Já faz algumas décadas que o hábito de cultivar alimentos no quintal foi abandonado por quase todos. Então temos gerações de adultos que nunca plantaram nada. Alguns até sentem medo e nojo da terra e das minhocas. É importante reconhecer, aceitar e refletir sobre esses sentimentos. E, quem sabe, esperar um pouco para iniciar as atividades com os estudantes. Vale a pena os educadores envolvidos com o projeto investirem tempo e energia em adquirir um pouco de experiência antes de envolver os alunos na atividade. No caso de se perceberem pouco à vontade com a ideia da horta, repensar o projeto e a participação.

4. Definir (e respeitar) os guardiões da horta – Quem vai cuidar da horta no dia-a-dia? Quem vai se preocupar com a falta e o excesso de chuvas, o vento, o granizo e as temperaturas extremas? Quem vai se virar para arranjar os insumos e sair correndo para acudir a horta em caso de necessidade? O diretor da escola? Um ou vários educadores? Outro funcionário? Pais de alunos? Voluntários? A pessoa ou as pessoas que assumirem esse papel merecem reconhecimento e liberdade para trabalhar. Só quem está ali no dia-a-dia com a enxada na mão é que sabe do que a horta precisa e quais são suas potencialidades. Talvez seja alguém não muito graduado na hierarquia da instituição e com pouca escolaridade, mas que traz consigo o principal: amor à terra. Os guardiões da horta devem decidir (debatendo com a direção da escola) o que é o melhor para ela e os rumos a serem tomados. E também as estratégias para manter a horta durante as férias, feriados e finais de semana.

5. Deixar as crianças brincarem – A simples existência da horta na escola já traz muitas oportunidades de reconexão com a natureza. Se as atividades por lá forem excessivamente dirigidas e pouco lúdicas, talvez tenham o efeito inverso do esperado, ou seja, os alunos detestarem a horta. Caso a horta vire um espaço sobretudo para fazer fotos e dar um verniz ecológico para escola, também não é legal. Bom mesmo é deixar o acesso livre para os estudantes poderem brincar e colher livremente. E se a horta virar uma sala de aula ao ar livre, com atividades de matemática, arte, ciências, história, geografia, melhor ainda! A intervenção dos adultos pode ser mínima em alguns momentos, apenas para evitar depredações e desperdício (principalmente nos primeiros tempos, depois não será mais necessário).  Ah, cuidado com o excesso de rega. Regar é uma atividade simples e divertida, mas água em excesso mata muita planta.

Quando a horta vai precisar mesmo ser usada para complementar a merenda e ajudar a garantir a segurança alimentar dos estudantes, sugiro fazer parcerias com agricultores profissionais para viabilizar o cultivo intensivo, sendo que eles podem trocar uma parte da produção pela possibilidade de acessar a terra e os insumos oferecidos pela escola.

6. Quebrar o concreto – A maior parte das escolas (assim como das residências, empresas, hospitais, igrejas, condomínios e ruas) tem cimento demais. Que tal tirar o pavimento da escola onde for possível e trazer de volta o solo, as plantas, os bichinhos? Isso deixará o ambiente mais fresco, menos poluído, menos barulhento. E os estudantes mais calmos, já que o verde reduz o estresse e a correria.

7. Plantar flores, PANCs e receber bem os bichinhos – Se vocês criarem um lindo jardim comestível provavelmente esse vai ser o canto mais agradável e mais amado da escola. Veja bem: a horta não precisa ser apenas um local com canteiros retangulares e hortaliças convencionais. É melhor que não seja, aliás. Plante pensando nos serviços ambientais que ela vai oferecer, como, por exemplo, abrigo de microfauna (incluindo as valiosas abelhas nativas sem ferrão) e reserva de biodiversidade vegetal sobretudo comestível. Por isso vale a pena aprender a identificar, cultivar e deixar nascer sozinhas muitas Plantas Alimentícias Não Convencionais (as PANCs).

8. Observar o que a terra quer produzir – Agricultores iniciantes em geral só querem cultivar alface, tomate, cenoura e outras espécies comuns de supermercado. Mas com o tempo a gente percebe que mais importante ainda é trazer de volta para nossos canteiros e nossas refeições as plantas que já fizeram parte das nossas tradições culinárias, mas hoje são tão raras que ficaram conhecidas como PANCs  (Plantas Alimentícias Não Convencionais ). E tem também alimentos tradicionais que facilitam a vida, pois não exigem muita dedicação: batata doce e mandioca, por exemplo.  Várias PANCs são muito nutritivas e bem fáceis de cultivar. E ao plantar tudo misturado vocês vão perceber quais espécies combinam e que isso ajuda a evitar infestações de bichinhos que alguns consideram pragas (eu não acredito em pragas, só acredito em proliferações que acontecem quando o ambiente não está equilibrado). A melhor maneira de aprender agricultura é assim: plantando e observando. Algumas PANCs: caruru, ora-pro-nobis, almeirão selvagem, bertalha, serralha, capuchinha, taioba, nirá, peixinho.

9. Não desperdiçar matéria orgânica – Fazendo compostagem, não é preciso comprar terra nem adubo, basta enriquecer o solo com matéria orgânica. Toda folha seca e graveto que cai no terreno da escola deve ser devolvido ao solo. E quase todos os resíduos da cozinha podem ser compostados. Aqui tem um guia muito legal sobre o tema, elaborado pela jornalista Raquel Ribeiro: http://www.compostagem.ecophysis.com.br/files/Guia-de-Compostagem-Caseira—Raquel-Ribeiro—2-Edicao—2013.pdf .

10. Ser criterioso com o reaproveitamento de materiais – Fazer uma horta na escola não demanda muito material. Regadores podem ser construídos a partir de embalagens plásticas e bordas de canteiros com sobras de madeira ou telhas. Na minha opinião, no entanto, com exceção dos regadores, convém evitar o plástico. As matérias primas naturais (madeira e pedras) deixam o visual mais bonito e evitam as falsas mensagens ecológicas. Virou mania as escolas pedirem para os alunos levarem embalagens plásticas para reaproveitar (inclusive de bebidas nada saudáveis) e sou contra essa prática, pois estimula o consumo e passa uma impressão – falsa – de que esse reaproveitamento resolve os problemas causados pelo plástico no mundo. Minha experiência com vasos em garrafa pet também foi ruim: são muito pequenos, esquentam demais, não respiram, podem liberar Bisfenol A. Não uso mais de jeito nenhum. Com pneus a situação é ainda mais complicada, pois eles contaminam o solo, de acordo a pesquisa “Reciclagem de granulados de pneus inservíveis em pavimentos de playgrounds: estudos de caso de avaliação de riscos à saúde humana e ao meio ambiente”, da arquiteta Mara Cabral  (infelizmente ainda não publicada). Mas esse post do blog “Hortas orgânicas e alimentação saudável’ traz diversos links internacionais sobre o tema http://sustentaveleorganico.blogspot.com.br/2015/05/bom-dia-pessoal.html.

11. Trocar sementes e mudas – A natureza é abundante e, a partir do momento em que começamos a plantar, passamos a produzir mudas e sementes em nossas hortas. Os agricultores sempre as trocaram entre si e esses momentos são muito intensos em dicas e aprendizados. Existem grupos realizando encontros em torno de mudas em sementes em diversas regiões. Para entrar nesse mundo sugiro participar da comunidade Semear Conhecimentos (https://www.facebook.com/Semearconhecimentos/).

12. Abrir as portas para a comunidade – A horta é um excelente mediador social. Todos têm memórias, experiências e vivências relacionadas à comida que vêm à tona quando estamos lidando com os canteiros. Fazer eventos e convidar pais de alunos e vizinhos para participar das atividades da horta pode dar muito certo. Só cuidado com o excesso de expectativa em relação aos voluntários. Cuidar de horta é maravilhoso, mas dá trabalho e inclui muito serviço pesado. Depender de voluntários para a manutenção nem sempre dá certo. Sobretudo se os voluntários forem vistos apenas como mão de obra e as decisões ficarem por conta de quem não costuma pegar na enxada.

13. Receber lições dos agricultores – Precisa de ajuda? Ninguém melhor para orientar do que o agricultor profissional, aquele que tira seu sustento da terra todos os dias. Convide-os e convide-as (mulheres são maioria na agricultura urbana) para visitar a horta, mas fique atento a alguns detalhes que, se não forem bem cuidados, podem causar desconforto. Para começar, numa escola não pode entrar agrotóxico. Então certifique-se de que o agricultor ou agricultora usa técnicas orgânicas. Lembre também que os agricultores são mal pagos e pouco valorizados em nossa sociedade. Por esse motivo, ele ou ela provavelmente não poderá se dedicar à horta da escola sem receber remuneração. Mas uma aula especial ou uma homenagem serão muito bem-vindas e a horta escolar se beneficiará de dicas preciosas.

PARA SABER MAIS
Livros e manuais incríveis (em português)
A Fuga das Minhocas, de Raquel Ribeiro – Uma história deliciosa que apresenta o assunto compostagem e hortas para as crianças.

Horta Escolar / Uma sala de aula ao ar livre, de Amanda Frugg, Bruno Helvécio, Lucas Ciola e Peter Webb – Bem completo, com orientações, depoimentos e sugestões de atividades para fazer com os estudantes.

Manual para Gestão de Resíduos Orgânicos nas Escolas, lançado pelo ISWA (Internacional Solid Waste Association) em parceria com a ABRELPE (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública). Link para download aqui:  http://www.abrelpe.org.br/noticias_detalhe.cfm?NoticiasID=2555

Livros/sites incríveis (em inglês)
American Grown, Michelle Obama – Um relato lindamente ilustrado sobre a horta da Casa Branca durante a gestão Obama. A horta, aliás, foi criada como um projeto de combate à obesidade infantil entre os alunos das escolas públicas de Washington.

Edible Schoolyard/A Universal Idea, de Alice Waters – Uma escola pública de má fama em Berkeley, California, floresceu quando a famosa chef aceitou o desafio de mexer na cozinha de lá e quebrar o concreto de uma quadra esportiva pouco usada para criar uma horta. Agora o projeto está em diversos lugares do mundo: http://edibleschoolyard.org/

Incredible! Plant Veg, Grow a Revolution, de Pam Wharhurst e Joanna Dobson – Um relato bem aprofundando da experiência de Todmorden, a cidadezinha inglesa que renasceu (inclusive economicamente) quando as hortas invadiram todos os espaços públicos, inclusive as escolas. No site tem muita informação também: https://www.incredible-edible-todmorden.co.uk/.

PARA TERMINAR
Algumas frases sobre hortas e escolas que já ouvi e não gostei muito…

“Estou ligando para você porque minha diretora quer uma horta”

“Queremos fazer uma horta vertical de garrafa PET”

“Você pode chamar os hortelões urbanos para cuidar da horta na nossa escola?”

“Queremos levar um grupo grande de crianças para trabalhar na sua horta apenas por um dia”

“Vamos fazer uma horta na escola. Arranja para a gente a terra, as mudas e as sementes?”

“Crianças: cuidado! Não mexe aí! Não corre! Fica quieto e escuta! Não põe a mão na terra! Não vá se sujar”

PARA TERMINAR MESMO
Traduzi algumas páginas (129 a 131) do livro Incredible! que dão uma ideia de como mobilizar a escola por meio da horta. Sim, as condições ali são bem melhores do que na maioria das escolas brasileiras. Mesmo assim, vale pela inspiração.

 Como diretora da escola, você pode ter as melhores ideias, mas a menos que exista alguém na equipe fazendo o projeto acontecer, não deslancha”, disse Helen Plaice [diretora da escola de Ensino Médio de Todmorden – Tod High]. “Você gira em falso e não alcança os estudantes”. Então foi feita uma chamada para que alguém aceitasse o posto de Líder de Estudos Vocacionais e o candidato bem sucedido foi o professor de Física, Paul Murray. Deram a ele alguns períodos livres durante a semana para trabalhar no currículo e algum dinheiro extra para remunerar suas novas responsabilidades. Para Helen isso era crucial para alcançar mudanças duradouras.  A nova posição deu a Paul a autoridade para fazer perguntas e pedidos a outros membros da equipe, o que seria impossível para alguém que estivesse trabalhando voluntariamente.

O ponto de mudança para a escola inteira aconteceu no verão quando Paul organizou o “Dia Diferente”, o nome que a escola dá para o dia em que o currículo normal é suspenso e os professores se voluntariam para realizar atividades com os alunos de uma série em particular. Um exemplo típico seria oficinas para desenvolver habilidades de estudo para alunos que se aproximam dos exames nacionais. Mas em vez disso Paul planejava algo muito mais imaginativo e nessa ocasião ele pegou os alunos mais jovens, de 12 e 13 anos, e deu-lhes um dia que não só eles como também os professores iriam lembrar como o dia em que viram as conexões entre comida e aprendizagem sob uma perspectiva completamente diferente.

Primeiro, Paul convidou Sally e Jonathan, os fazendeiros que já estavam fornecendo para Tod High a maior parte de sua carne, a trazer alguns de seus animais para a escola e montaram  uma minifazenda no gramado. Lá estavam os porquinhos e bezerros para providenciar o fator “ahhh” e, apesar de haver muita agricultura na área, foi a primeira vez que alguns alunos tocaram em um animal de fazenda. Então Paul apresentou uma série de atividades para ajudar as crianças e adolescentes a pensar sobre comida de novas maneiras. Aconteceram aulas sobre o ciclo de vida das plantas e como construir um minhocário, havia estudantes calculando os quilômetros rodados por cada tipo de maçã para chegar à sua mesa e suposições sobre qual a porcentagem do preço se devia ao transporte. Então eles estudaram as proporções para produzir smoothies [um tipo de suco mais consistente]: quantos kiwis são necessários para uma determinada quantidade de abacaxis, por exemplo.

Tony [chef local] apareceu com algumas demonstrações culinárias e fez com que os estudantes montassem saladas usando os ingredientes que eles tinham cultivado na escola. No fim do dia os professores estavam  vibrando com ideias para incluir temas sobre alimentação em suas áreas de ensino, exatamente o que Helen esperava que acontecesse quando designou Paul . “A equipe saiu da escola naquele dia vendo o currículo de uma perspectiva diferente”, ela disse. “Acho que se eu tivesse dito simplesmente que era para inserir três atividades relacionadas a comida no planejamento pedagógico até o fim do ano eles teriam pensado ‘o que será que ela bebeu?’”.

Gradualmente o assunto comida começou a entrar em todas as partes do currículo. A escola tem status de especialista em artes visuais e os professores de arte foram os primeiros a aderir, produzindo, entre outras coisas , um livro com as melhores receitas de Tony, lindamente ilustrado pelos alunos. Um estudante que se preparava para a universidade trabalhou com o Incredible Edible para produzir posters que ele poderia apresentar como parte de seu portfólio de design gráfico. Em história, os estudantes aprenderam sobre comida em diferentes épocas e em ciências estudaram a composição dos diferentes alimentos. Em matemática calcularam qual porcentagem de um salário mínimo é gasta com alimentação e então trabalharam com o departamento de Tecnologia Alimentar para comparar o custo e o valor nutricional da comida processada e da comida feita em casa (a comida fresca se mostrou 40% mais barata). Em todas as áreas, o objetivo era enviar mensagens sobre nutrição, higiene, sustentabilidade e ética da produção de alimentos. Para Paul, uma das mais importantes recompensas provenientes dessa abordagem foi que os estudantes não estavam apenas aumentando seus conhecimentos sobre determinados assuntos como também adquirindo habilidades vitais como administração financeira e como fazer escolhas que beneficiem a própria saúde.

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