Dá para ser muito feliz consumindo menos

38. A desinvenção do lixo

O que será que vai acontecer antes: a gente desinventar o lixo ou o lixo soterrar a civilização?

Eu tinha acabado de escrever a frase acima quando apareceu na home do UOL a seguinte notícia: Carga de lixo vinda da Alemanha é encontrada em porto do Rio Grande do Sul(http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/784380-carga-de-lixo-vinda-da-alemanha-e-encontrada-em-porto-do-rio-grande-do-sul.shtml). No tal contêiner (encontrado dia 4/8 e anunciado hoje) estão 22 toneladas de lixo doméstico, incluindo fraldas usadas e todo tipo de porcaria. Em junho do ano passado, não sei se você se lembra, a mídia noticiou bastante a descoberta de 89 contêneires com cerca de 1.200 toneladas de lixo tóxico, domiciliar e eletrônico vindas da Inglaterra. 

Quando comecei a batucar esse texto, minha intenção era escrever sobre o conceito de lixo, que é novidade. Surgiu com a industrialização e a invenção de materiais que não se decompõem naturalmente, como os plásticos. Todas as civilizações anteriores à Era do Consumo Frenético reaproveitavam tudo, até o xixi (no tingimento de tecidos) e o cocô (como adubo). Mas esse caso de polícia me tirou do sério e outra hora retomo o papo-cabeça.

É ingenuidade acreditar que o contêiner alemão de agora e a imunda frota inglesa de 2009 foram os únicos carregamentos do gênero já importados ilegalmente pelo Brasil. O fato é que estamos na rota do tráfico internacional de lixo, em companhia principalmente das nações africanas. O ótimo livro Gomorra, de Roberto Saviano (aquele cara que contou tudo sobre a máfia napolitana e está jurado de morte), explica direitinho a conexão entre os dejetos da nossa sociedade e o submundo do crime.

Se na Europa não há mais espaço para armazenar lixo, no Brasil os aterros estão cada vez mais saturados. Tudo que os lixeiros recolhem no litoral norte de São Paulo, por exemplo, sobe a serra para ser depositado perto de Paraibuna. Ou seja, se o assunto é sustentabilidade, a barra daqueles paraísos praianos anda meio suja.

A maioria das pessoas ainda acredita que a reciclagem é uma solução mágica para o problema do lixo. Mas, não por acaso, os 3 R’s do lema dos ambientalistas vêm na seguinte ordem: Reduza, Reutilize e Recicle. Ou seja, reciclar, só em último caso, pois se trata de um processo industrial que gasta muita energia, muitos produtos químicos tóxicos e muito combustível (no transporte da sucata). A própria Bracelpa, entidade que reúne as indústrias papeleiras, assume que o papel reciclado tem o mesmo impacto ambiental do papel novo, se for certificado (http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090415/not_imp354835,0.php).

Se a reciclagem fosse uma solução perfeita para eliminar 100% do lixo, por que países tão preocupados com o meio ambiente, como a Inglaterra e a Alemanha, estariam mandando seus contêineres sujismundos para cá?

Galera, não tem outro jeito: é preciso reduzir o consumo e reutilizar ao máximo aquilo que a gente já tem. Ou então esperar que o tsunami do lixo cubra o planeta.

Carlos Simões é o moderador do São Paulo Freecycle. Quando eu estiver mais calminha explico melhor como funciona esse grupo. Por enquanto, fique com os vídeos que ele indica:

http://www.youtube.com/watch?v=BWPU5WNgQ2w&feature=youtu.be  (Trailer de Waste Land, documentário que mostra o trabalho do artista plástico Vik Muniz com os catadores que trabalham num lixão no Rio de Janeiro)

http://www.youtube.com/watch?v=U6IbRSRe8MQ&feature=related
(Clip da música 3 R’s, do cantor e compositor havaiano Jack Johnson)

http://vimeo.com:80/2354118
(O mundo visto pelos olhos dos catadores)

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2 Comments to 38. A desinvenção do lixo

  1. 23 de agosto de 2010 at 13:23 | Permalink

    Cláudia,

    Eu concordo que é urgente mudar a mentalidade do consumo, consumindo apenas o necessário e apostando cada vez mais na reciclagem e na reutilização. Mas não me parece que conseguiremos mudar por completo os hábitos de uma sociedade que, ela própria, depende desse mesmo modelo económico que produz lixo para a criação de emprego, riqueza e bem-estar. É um modelo inteligente? Não. Sustentável? Também não. Mas é o modelo que temos. E como ele é conveniente para a maioria que detém o poder económico e/ou político, parece-me que uma proposta realista deve envolver várias frentes de batalha.
    Penso de imediato em duas frentes possíveis (há mais, claro): a mudança de mentalidades (através de, entre outras iniciativas, blogues inteligentes como o seu) e a pressão para que sejam adotadas pelas indústrias soluções tecnológicas mais amigas do ambiente.
    Há novos materiais, como o PLA (http://en.wikipedia.org/wiki/Polylactic_acid), que são biodegradáveis e já poderiam estar a ser utilizados no lugar do plástico e outros polímeros. Uma vez que implicariam não só custos de desenvolvimento de produto, mas também adaptação da linha de produção, estes novos materiais são mais caros e, por isso, pouco atraentes para a indústria – mas talvez não para um consumidor informado. Mas alternativas existem e podem vir a ser uma postas em prática, sobretudo se houver uma pressão do consumidores para tal.
    Você deu o exemplo das fraldas descartáveis. Por mais que se preocupem com a sustentabilidade, poucos pais toparão abrir mão das fraldas descartáveis que tanto lhes facilita a vida. Mas acho que muitos pais estariam disponíveis a pagar um pouco mais por fraldas que fossem produzidas com um material biodegradável.
    Em resumo, acho que temos de mudar os nossos hábitos, sim. Mas não sendo possível – e também conveniente, para ser sincera – regressar à caverna, creio que devemos estar abertos a soluções científicas que permitam um compromisso entre a sustentabilidade e o conforto.

    Um grande beijo e, mais uma vez, parabéns pelo blogue.
    Andréia

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