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44. Uma paixão cafageste

No day-after Sem Carro, penso que não é coisa boa o tão aclamado amor pelos automóveis que dizem ser característica dos brasileiros.

Nunca antes nesse país tanta gente dedicou tanta energia e tanto dinheiro para ostentar um automóvel. Boa parte do orçamento doméstico da classe emergente está sendo investida em prestação de carro, combustível, estacionamento, IPVA e multa. Nem tenho a pretensão de criticar, já que há 25 anos ando por aí motorizada.

O que me incomoda mesmo são as afirmações de a paixão por carro é uma característica natural do povo brasileiro. Para mim, trata-se do resultado de uma supereficiente campanha mercadológica. Durante as últimas seis décadas, megaempresas (de olho em altos lucros) se uniram a sucessivos governos (de olho em altos impostos) para encher o país de carros. E conseguiram!

Se quisermos entender por que hoje temos ruas congestionadas, estradas assassinas e um ex-sindicalista do ABC na presidência, devemos olhar o que aconteceu lá atrás. Tudo começou nos anos 50, quando Juscelino Kubitschek teve a ideia de tornar a indústria automobilística o motor do progresso do país.

Meus pais são da época em que se viajava de trem e nas cidades do interior onde moravam o transporte era a pé ou de charrete. Não me parece que os carros fizeram falta em sua infância e juventude. Mas aí o governo resolveu arrancar as vias férreas, sabotar o transporte coletivo e dificultar ao máximo a vida dos pedestres. Hoje, todo mundo prefere andar de carro, inclusive Seu Mario e Dona Wanda.

Pelo menos por enquanto, eu preciso do automóvel. Não me empolgo com novos modelos nem acredito em expressar minha personalidade por meio do veículo que dirijo. Se bem que, naturalmente, isso acaba acontecendo… Tenho uma Zafira 2005 (carro de mãe) de estilo involuntariamente ecológico. Como a garagem de casa é descoberta, a máquina vestiu-se de folhas e cocô de passarinho.

Hoje é o day after do Dia Mundial Sem Carro. Como esperado, a mídia constatou que os níveis de congestionamento não se abalam um centímetro com a iniciativa. Mas coisinhas pitorescas aconteceram e a metrópole ficou um pouco mais humana. Uma turma foi passear a cavalo na Avenida Paulista. Grupos de ciclistas ocuparam as ruas. Jornalistas de O Estado de São Paulo tiveram que se virar para chegar ao trabalho sem seus veículos. Políticos fizeram demagogia passeando de ônibus. E o SOS Mata Atlântica lançou a divertidíssima campanha “Vá de galinha” (http://vadegalinha.org.br/).

Juro que agora chega de falar de carro. Semana que vem espero trazer algum assunto mais perfumado.

Como diria meu amigo Flávio: feliz primavera para você!

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2 Comments to 44. Uma paixão cafageste

  1. 29 de setembro de 2010 at 12:44 | Permalink

    Não andei de carro no dia mundial sem carros. No dia seguinte fui fazer a vistoria anual, da qual reclamo mas vejo que surte efeito na hora de pensar sobre ter ou não a máquina na garagem. Marcada para a 8 e 1/2 da manhã, saí de casa uma hora nates e cheguei UMA HORA E QUARENTA MINUTOS depois, peguei uma marginal parada até as tampas e o que me salvou foi um cd da Marina ouvido à exaustão e o ar condicionado no máximo. irritação foi pouco. Cheguei em casa dizendo que venderia o carro já. Mas aí… vai vender como? vai pro teatro como? e quando? e naquele dia…. É irritante o grau de dependência que temos hoje de coisas como carro, celular e computador. Tudo tem seu lado bom, que é o limite da eficiência e do ganho de uqalidade de vida. Mas com as ruas do jeito que estão, esses limites já foram deixados para trás há tempos. A tecnologia começa a se virar contra nós e o stress que geram só se avoluma. Queria tanto andar só de metrô!

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