Passeando com o mouse, descobri lugares que dão vontade de entrar, tirar os sapatos e passar a madrugada filosofando e tomando vinho na mesa da cozinha. Decoração ecológica é algo que vem de dentro.
Revistas de decoração sempre me deixam um pouco aflita. Olho aqueles ambientes tipo castelo de Versailles com assepsia de hospital e sinto um vazio no peito. Fico imaginando uma madame que exige do pelotão de empregadas limpeza e organização absolutas. Penso nela gritando com os filhos para não jogarem bola ou comerem pipoca na sala. E no marido se refugiando em algum canto que possa chamar de seu, caso tenha essa sorte. O que mais me deixa invocada é a ausência de objetos que contem a história das pessoas que vivem ali. É um tal de lustre francês e poltrona de designer holandês, sem chance para as coisinhas cafonas que a gente junta pela vida. E onde estão os badulaques que denunciam origens étnicas e o passado quase nunca aristocrático da família?
Por isso, foi uma delícia descobrir dois blogs repletos de imagens da casas e apartamentos que lavam a alma. Um deles é gringo: www.theselby.com, feito pelo fotógrafo e ilustrador norte-americano Todd Selby. O outro, de um legítimo habitante do Copan, edifício-ícone do centrão de São Paulo. O endereço http://quartoesala.etc.br/ foi criado pelo designer, fotógrafo e cenógrafo Gabriel Valdivieso.
Ontem passei um bom tempo xeretando a morada da galera que esses dois jovens escolheram para colocar na rede. A sessão voyerismo valeu a pena. São lugares que dão vontade de entrar, tirar os sapatos e passar a madrugada filosofando e tomando vinho na mesa da cozinha. Como é reconfortante um ambiente com móveis baratos ou reaproveitados, cadeiras velhas e fora de moda, livros supermanuseados, coleções bobas, LPs, cartazes de filmes que marcaram o mundo, brinquedos preferidos de infâncias longíquas na estante e fotos na parede. Está na cara que crianças, animais de estimação, gente com dor de cotovelo e meio maluca é bem-vinda. E quem prepara a comida e lava a louça são os donos da casa. Um pouco de bagunça sempre vai bem para temperar a vida!
No “quarto&sala” achei até uma oficina mecânica com papel de parede de florzinha (http://quartoesala.etc.br/2010/07/06/oficina-mecanica-do-garcia-ltda/) e uma casa pataxó, de taipa, onde a pobreza não roubou a dignidade (http://quartoesala.etc.br/2010/10/29/casa-pataxo/). E continuei em frente, a espiar jardins meio selvagens, resquícios de idolatrias adolescentes, confusão dos potes no banheiro e azulejos loucamente desenhados com canetinha.
Decorar a casa pode ser barato, pode ser ecológico, pode elevar o espírito da gente.
Oi Claudia! Acabei de achar teu blog e adorei! Alias adorei este post. Moro no Canada e aqui além de toda a frescura de decoraçao da casa, tem tb uma loucura, uma verdadeira fascinaçao pela grama. Passamos quase 5 meses embaiuxo de neve e logo que a danada derrete e que o verde tem uma chancezinha de aparecer, a galera começa a arrancar qualquer coisa que pareça com uma erva daninha. E o pior é quando eles utilisam os pesticidas poluidores (mesmo ilegais) para nao ter tanto trabalho. Da nojo! Nos resolvemos ter um jardim “selvagem” (como chamam nossos amigos). Nos o chamamos: “espontâneo”. Resultado? Temos uma patio super-privé, decorado de verde por tudo…nem podemos ver nossos vizinhos. O que mais? Esse ano nasceu uma planta de amoras (nao sei o nome em português). Breve, é isso… menos preocupaçao com coisas bobas, e mais tempo pra aproveitar a vida! Parabéns pelo texto! Virei fa!
Oi Mylene,
Muito legal seu comentário. É muito boa essa internet quando nos ajuda a encontrar afinidades pelo mundo a fora… Estou lendo uma das bíblias atuais do ambientalismo — “Cradle to Cradle” — e lá pelas tantas o autor comenta que sua mãe foi MULTADA em Berlim na década de 1980 porque seu jardim era bagunçado. Decidiu pagar a multa por vários anos, pois acreditada num jeito mais orgânico e biodiverso de cultivar plantas. Uma década depois recebeu um prêmio, pois o lugar se tornou um ponto de atração de pássaros. Sua pequena selva deve ser maravilhosa e estou também por aqui tentando uma versão micro de agrofloresta em casa. Ou seja, juntando a horta com as árvores espontâneas que aparecem. Tenho uma embaúba e uma goibaeira crescendo sem terem sido semeadas. São muitas abelhas, pássaros, joaninhas e outros bichinhos sempre visitando, já que não usamos veneno nenhum (claro) e até mesmo os produtos de limpeza são alternativos. Seja sempre bem-vinda ao blog e vamos semeando!