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53. Casas com alma

Passeando com o mouse, descobri lugares que dão vontade de entrar, tirar os sapatos e passar a madrugada filosofando e tomando vinho na mesa da cozinha. Decoração ecológica é algo que vem de dentro.

Revistas de decoração sempre me deixam um pouco aflita. Olho aqueles ambientes tipo castelo de Versailles com assepsia de hospital e sinto um vazio no peito. Fico imaginando uma madame que exige do pelotão de empregadas limpeza e organização absolutas. Penso nela gritando com os filhos para não jogarem bola ou comerem pipoca na sala. E no marido se refugiando em algum canto que possa chamar de seu, caso tenha essa sorte. O que mais me deixa invocada é a ausência de objetos que contem a história das pessoas que vivem ali. É um tal de lustre francês e poltrona de designer holandês, sem chance para as coisinhas cafonas que a gente junta pela vida. E onde estão os badulaques que denunciam origens étnicas e o passado quase nunca aristocrático da família?

Por isso, foi uma delícia descobrir dois blogs repletos de imagens da casas e apartamentos que lavam a alma. Um deles é gringo: www.theselby.com, feito pelo fotógrafo e ilustrador norte-americano Todd Selby. O outro, de um legítimo habitante do Copan, edifício-ícone do centrão de São Paulo. O endereço http://quartoesala.etc.br/ foi criado pelo designer, fotógrafo e cenógrafo Gabriel Valdivieso.

Ontem passei um bom tempo xeretando a morada da galera que esses dois jovens escolheram para colocar na rede. A sessão voyerismo valeu a pena. São lugares que dão vontade de entrar, tirar os sapatos e passar a madrugada filosofando e tomando vinho na mesa da cozinha. Como é reconfortante um ambiente com móveis baratos ou reaproveitados, cadeiras velhas e fora de moda, livros supermanuseados, coleções bobas, LPs, cartazes de filmes que marcaram o mundo, brinquedos preferidos de infâncias longíquas na estante e fotos na parede. Está na cara que crianças, animais de estimação, gente com dor de cotovelo e meio maluca é bem-vinda. E quem prepara a comida e lava a louça são os donos da casa. Um pouco de bagunça sempre vai bem para temperar a vida!

No “quarto&sala” achei até uma oficina mecânica com papel de parede de florzinha (http://quartoesala.etc.br/2010/07/06/oficina-mecanica-do-garcia-ltda/) e uma casa pataxó, de taipa, onde a pobreza não roubou a dignidade (http://quartoesala.etc.br/2010/10/29/casa-pataxo/). E continuei em frente, a espiar jardins meio selvagens, resquícios de idolatrias adolescentes, confusão dos potes no banheiro e azulejos loucamente desenhados com canetinha.

Decorar a casa pode ser barato, pode ser ecológico, pode elevar o espírito da gente.

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4 Comments to 53. Casas com alma

  1. Mylene's Gravatar Mylene
    6 de julho de 2011 at 13:27 | Permalink

    Oi Claudia! Acabei de achar teu blog e adorei! Alias adorei este post. Moro no Canada e aqui além de toda a frescura de decoraçao da casa, tem tb uma loucura, uma verdadeira fascinaçao pela grama. Passamos quase 5 meses embaiuxo de neve e logo que a danada derrete e que o verde tem uma chancezinha de aparecer, a galera começa a arrancar qualquer coisa que pareça com uma erva daninha. E o pior é quando eles utilisam os pesticidas poluidores (mesmo ilegais) para nao ter tanto trabalho. Da nojo! Nos resolvemos ter um jardim “selvagem” (como chamam nossos amigos). Nos o chamamos: “espontâneo”. Resultado? Temos uma patio super-privé, decorado de verde por tudo…nem podemos ver nossos vizinhos. O que mais? Esse ano nasceu uma planta de amoras (nao sei o nome em português). Breve, é isso… menos preocupaçao com coisas bobas, e mais tempo pra aproveitar a vida! Parabéns pelo texto! Virei fa!

  2. claudia's Gravatar claudia
    10 de julho de 2011 at 21:00 | Permalink

    Oi Mylene,
    Muito legal seu comentário. É muito boa essa internet quando nos ajuda a encontrar afinidades pelo mundo a fora… Estou lendo uma das bíblias atuais do ambientalismo — “Cradle to Cradle” — e lá pelas tantas o autor comenta que sua mãe foi MULTADA em Berlim na década de 1980 porque seu jardim era bagunçado. Decidiu pagar a multa por vários anos, pois acreditada num jeito mais orgânico e biodiverso de cultivar plantas. Uma década depois recebeu um prêmio, pois o lugar se tornou um ponto de atração de pássaros. Sua pequena selva deve ser maravilhosa e estou também por aqui tentando uma versão micro de agrofloresta em casa. Ou seja, juntando a horta com as árvores espontâneas que aparecem. Tenho uma embaúba e uma goibaeira crescendo sem terem sido semeadas. São muitas abelhas, pássaros, joaninhas e outros bichinhos sempre visitando, já que não usamos veneno nenhum (claro) e até mesmo os produtos de limpeza são alternativos. Seja sempre bem-vinda ao blog e vamos semeando!

  3. 3 de junho de 2013 at 12:58 | Permalink

    Olá Claudia, td bem? Sempre te encontro lá nos Hortelões e agora também virei fã do seu blog (rsrs). Quis comentar aqui em especial porque estou passando por uma mudança radical de postura de vida, especialmente no quesito decoração (rsrs).
    Comprei um ap. lá pros lados de Perdizes que mais parecia um esconderijo (1º andar, sem iluminação, barulho de garagem, um horror!), mas como era o que dava pra comprar sem sair da região central e de perto de alguma qualidade de vida por pequenino, fiz o negócio e prometi melhorá-lo o máximo que pudesse sem quebradeira ou muitas mudanças radicais. Sabe o que aconteceu? Gastei o triplo do que havia me proposto (e que podia) e agora, além de endividada, descubro todos os dias (e aos poucos) que o pessoal da reforma simplesmente ignorou meu pedidos e avisos sobre quebrar o mínimo possível, desperdiçar o mínimo possível etc. Parece que eles me viam como uma “mão-de-vaca” ou coisa do gênero, então resolveram me “punir” por isso fazendo um serviço ruim e desperdiçando bastante material. Atualmente, desisti de transformar o ap. em “capa de revista” e agora me esforço por reaproveitar ao máximo o que tenho em casa e transformá-lo num lar. Tenho muitos problemas com umidade e bolor e não vou mesmo conseguir ter uma horta (não há iluminação possível!), por isso, os planos mudaram. Agora queremos nos livrar o mais rápido possível das dívidas, do financiamento e nos mudar para um outro lugar onde possamos respirar melhor e fazer as coisas do nosso jeito, ou seja, muito verde, muito reaproveitamento e muito mais vida real. Obrigada pela inspiração.

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