Dá para ser muito feliz consumindo menos

58. Turismo urbano

Programa hype do verão: conhecer a biblioteca e o parque que estão no lugar do Presídio do Carandiru. É divertido e renova a esperança na humanidade.  

Antes havia um presídio tenebroso e agora existe uma biblioteca e um parque. Apenas isso já seria o suficiente para compensar o investimento de R$ 2,65  no ticket de metrô para ir até a Estação Carandiru. Mas o programa vale muito mais. Chegando lá, você vai descobrir que a Biblioteca de São Paulo (http://www.bibliotecadesaopaulo.org.br/ ) é simplesmente maravilhosa e que dá gosto andar pelo Parque da Juventude (http://www.sejel.sp.gov.br/parquedajuventude/).

Nunca tinha visitado uma biblioteca tão democrática com um projeto arquitetônico tão arrojado. Planejada para atender todo tipo de pessoa e incentivar o gosto pela leitura, cumpre sua missão hiperbem. Entrei com a família só para dar uma olhadinha e dali a pouco estávamos nós quatro refestelados nos pufes, lendo. No andar térreo fica a ala infantil, com as obras expostas em prateleiras baixas e capas totalmente à mostra. Os livros são novos e muito bem escolhidos. As crianças pegam o que querem e os monitores estão sempre por perto para orientar, se preciso. Nas laterais, fileiras de computadores último tipo para a garotada se esbaldar em videogames e surfando na web. Conversei com o Cadu Braga, um dos monitores, que me contou a estratégia esperta da BSP: cada usuário tem direito a 2h30 de uso de micro por dia e é justamente quando acaba essa cota que muitos frequentadores-mirins embarcam na literatura. Ele dá a dica de passear por lá nos dias da semana, quando nunca lota.

No primeiro andar estão as atrações para os adultos. Subi as escadas esperando prateleiras altíssimas, livros dispostos como sardinha em lata e ambiente sisudo. Encontrei uma praça pós-moderna, o oposto do cenário de “O Nome da Rosa”. O grupo de adolescentes estudava para o vestibular numa mesa enquanto o moço de cabelo black-power enfrentava o tiozinho no tabuleiro de xadrez ao lado. Senhoras jogavam paciência no computador, uma moça assistia a um filme de Hollywood com fones de ouvido. Acabei indo parar no canto onde ficam todos os jornais do dia e centenas de revistas novinhas, de informação e futilidade, muitas delas estrangeiras. No setor de livros, uma seleção irresistível ao alcance das mãos. “Linguagem corporal dos cães”, a biografia de Gloria Pires e “O Livro da Cerveja” não foram discriminados frente às obras de García Lorca, Saramago, Shakespeare e Machado de Assis.

Um folder anuncia mensalmente as atividades da biblioteca. Tem curso de iô-iô, contação de histórias, saraus poéticos, ciclos de filmes, lançamentos de livros e espetáculos teatrais. Tudo de graça. Impossível esquecer que há não muito tempo aquele local era palco dos horrores da Casa de Detenção. 

Com a esperança na humanidade recarregada, fomos passear no Parque da Juventude e encontramos o mesmo ambiente pluralista e festivo. De terça a sábado, as quadras ficam abertas até 2 da madrugada! Grande parte dos freqüentadores mora ali perto e conviveu durante décadas com o presídio. Poder desfrutar do parque e da biblioteca é uma recompensa mais do que merecida. E, para os visitantes de outras partes da metrópole e do mundo, trata-se de um programa turístico da melhor qualidade, totalmente carbon-free (para ter graça, a viagem de metrô precisa fazer parte do pacote). 

 Senti falta de um museu, pois a triste história da Casa de Detenção não pode ser esquecida. Por enquanto, o livro “Estação Carandiru”, de Dráuzio Varella, e o filme “Carandiru”, de Hector Babenco, dão conta do recado.

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