Dá para ser muito feliz consumindo menos

69. Currículo para a vida

Não parece, mas o excesso de trigonometria na escola tem tudo a ver com doenças precoces e pouca atenção ao futuro do planeta. Se você é de exatas, substitua “trigonometria” por “análise sintática” na frase anterior.

Sempre gostei de escola e fui boa aluna (embora um pouco rebelde). Mas, tanto décadas atrás quanto hoje, tudo podia ser muito melhor se os estudantes não fossem obrigados a engolir toneladas de conteúdo sem pé nem cabeça em nome de algo anacrônico chamado vestibular. Ao conversar outro dia com uma adolescente do Ensino Médio, angustiada com a trigonometria, terrores antigos ressuscitaram. Engenheiros que me desculpem, pois isso deve servir para alguma coisa, mas achei crueldade continuarem a apresentar esse assunto exatamente como se fazia no século passado: de forma totalmente descontextualizada e baseada na decoreba. Sobretudo para pessoas com cabeça de humanas, como é o meu caso e também o da minha jovem interlocutora. Para a turma dos números, análise sintática e interpretação de poesias simbolistas (lições que me são úteis até hoje e jamais esqueço) provavelmente causam semelhante desgosto.

Assim que saí da prova da FUVEST, deletei as migalhas de trigonometria que consegui assimilar junto com a maior parte das matérias exatas.  Hoje em dia, não consigo ir muito além da regra de três e das porcentagens. Que ninguém me peça para calcular juros compostos ou resolver equação de segundo grau. Portanto, as horas e horas da minha adolescência em que tentei enfiar nos neurônios fórmulas e cálculos avançados foram apenas inúteis e desagradáveis.

Por outro lado, gostaria de ter aprendido mais sobre plantas, animais, saúde, sustentabilidade, antropologia e psicologia. Gostaria de ter tido aulas de culinária e de como consertar coisas. Um novo mundo da educação precisa ser criado. Felizmente, há sinais de mudança no ar. Em Bali, a Green School (www.greenshoool.org) dá um show ao misturar conteúdos teóricos e vivências práticas necessárias para a construção de uma sociedade sustentável. Outras experiências semelhantes, que personalizam boa parte do currículo, pipocam por aí. Que elas proliferem, pois as crianças e adolescentes de hoje encontrarão um mundo bem complicado para viver. Recursos energéticos e agrícolas mais escassos, mudanças climáticas, superpopulação e poluição são alguns dos problemas que tendem a se agravar.

Em vez de educar para o sucesso — conceito que significa êxito para alguns e fracasso para muitos outros –, nossa sociedade deveria preparar melhor as próximas gerações para cuidar tanto do ecossistema externo quanto do interno. Outro dia li na Folha de São Paulo a seguinte manchete: “Casos de derrame cerebral aumentam entre os jovens” (http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/883177-casos-de-derrame-cerebral-aumentam-entre-os-jovens.shtml) . A reportagem lista as causas: sedentarismo, estresse, abuso de drogas e álcool, dieta com poucas fibras e verduras e excesso de sal. Por que será que uma parte da juventude tem atitudes tão insalubres ao ponto de entrar no grupo de risco de uma doença grave antigamente restrita aos idosos? Fatores como estar alienado da essência da vida e sob pressão para ser ultracompetitivo não estariam por trás disso?

Fique claro que não estou advogando estender o jardim da infância até o Ensino Médio. Apenas acredito que a família e os educadores deveriam evitar as informações fora de contexto, esquecer esse papo bobo de winners&losers e dar mais valor àquilo que serve para viver melhor tanto no presente quanto no futuro. E aí volto a bater na tecla da sustentabilidade: de nada adiantará estar pronto para vencer na carreira se a situação do planeta ficar muito ruim.

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