Dá para ser muito feliz consumindo menos

75. O sabão sustentável da Sílvia

Vai aí a receita para fazer sabão em casa com óleo de cozinha usado e uma boa conversa sobre o passado das nossas famílias.

Fiquei sabendo que a mãe de uma criança que estuda no mesmo colégio que os meus filhos recolhe na vizinhança o óleo de cozinha usado para fazer sabão em casa. Depois devolve o produto para as pessoas que doaram a matéria prima com uma mensagem de agradecimento e incentivo a continuar evitando a contaminação do meio ambiente. Demais, né? Quis ver isso de perto, claro. Então me candidatei a ajudar na fabricação e lá fui eu.

Silvia Carui é administradora de empresas, durante muito tempo dirigiu um instituto de pesquisas e está prestes a fundar uma empresa de comércio exterior. Inconformada com o desperdício e o grande estrago que o óleo descartado incorretamente provoca, experimentou várias receitas de sabão artesanal e, durante a entressafra na carreira, virou expert no assunto.

Quando perguntei como surgiu essa história de fabricar sabão, ela disse que cresceu no interior e lá a atividade, que até hoje faz parte da rotina da mãe dela, ainda é comum. Por uma incrível coincidência, Silvia, que é descendente de italianos como eu, nasceu em Penápolis, assim como meu pai. Então é mais do que provável que nossas avós tenham se conhecido.

Pegamos um quilo de soda cáustica e jogamos num balde de plástico. Despejamos em cima um litro de água fervente (sai um vapor tóxico, então é preciso se afastar nessa hora). Fiquei mexendo com um cabo de vassoura e Silvia brincou que aquilo parecia um caldeirão de bruxa. Conversa vai, conversa vem, percebi como o mundo mudou rápido. Nossas avós tinham galinheiro e horta no quintal, costuravam as próprias roupas, faziam pão e quase nunca compravam nada pronto. Lixo era algo que não existia, pois tudo se reaproveitava.

Depois que a soda estava dissolvida na água, pegamos os 5 litros de óleo usado, que estava dentro de garrafas PET, e pusemos na mistura, com o líquido passando antes pelo coador. Mais mexe-mexe, adicionamos 200 ml de amaciante de roupas e, para terminar, colocamos a pasta resultante numa bandeja de plástico. Ficou uma camada de cerca de 4 cm. Silvia guardou o preparado no armário e me disse que dali uma semana estaria branco e durinho, pronto cortar e usar.

Achei fácil e uma delícia fazer sabão. Na internet, descobri que a receita original, com mais de 5.000 de idade, consistia simplesmente em misturar cinzas com gordura animal. As fábricas surgiram há menos de três séculos. Ou seja, foram 4.700 mexendo o caldeirão no quintal, assim como Silvia e eu fizemos na varanda do moderníssimo apartamento dela.

Ganhei de presente umas barras que já estavam prontas e tenho usado para lavar louça. O produto é ótimo! Limpa superbem, não agride a pele e não tem aquele cheiro enjoado dos detergentes.

PS – Nunca jogue fora o óleo usado, pois um litro polui 1 milhão de litros de água. Se não quiser reciclar você mesmo, guarde e leve a um posto de coleta. Muitos supermercados recebem esse resíduo e pontos de entrega em todo o país estão listados aqui: http://revistacrescer.globo.com/Revista/Crescer/0,,EMI86068-17334,00.html

SABÃO DA SÍLVIA

INGREDIENTES
5 litros de óleo de cozinha usado e coado
1 kg de soda cáustica em pó ou escamas
1 litro de água fervente
200 ml de amaciante
10 gotas de essência para perfumar (opcional)

COMO FAZER
Coloque a soda num balde resistente e em seguida a água fervente. Cuidado com o vapor tóxico! Mexa bem até a soda dissolver. Acrescente o óleo e continue mexendo. Junte o amaciante e a essência (se quiser). Despeje a mistura numa assadeira de plástico ou metal e deixe esfriar. Espere uma semana, corte em pedaços e pode usar. Dura cerca de dois anos.

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11 Comments to 75. O sabão sustentável da Sílvia

  1. Ricardo Navarro Pereira's Gravatar Ricardo Navarro Pereira
    25 de maio de 2011 at 7:38 | Permalink

    A Sílvia está sempre fazendo algo criativo. É assim desde criança. E sta agora foi ótima. Parabéns.

  2. Joana's Gravatar Joana
    25 de maio de 2011 at 8:51 | Permalink

    Uma das razões para eu nunca ter feito isso é que a moça que trabalha em casa leva para a avó dela fazer sabão no quintal dela, desse jeitinho. Mas desde que soube da Sílvia fiquei com vontade de ter um sabão desses também. Estou juntando óleo para mim mesma agora.

    bjs

  3. claudia's Gravatar claudia
    25 de maio de 2011 at 9:53 | Permalink

    Joana, adoraria um encontro algum dia desses para fazer sabão com você. Mas será que a avó da moça que trabalha aí não vai ficar chateada? De repente, além de fazer o nosso sabão, a gente podia se organizar para mandar mais óleo para ela…

  4. Silvia's Gravatar Silvia
    25 de maio de 2011 at 19:57 | Permalink

    O mais bacana disso é que podemos pegar óleo de varias pessoas conhecidas que nunca se preocuparam em guarda-lo, ou mesmo não sabiam como descarta-lo. Entao, a matáeria prima é abundante. No começo conversei com minha costureira, com meu professor de francês, com as vizinhas do prédio, minha sogra, e assim fui juntando o óleo necessário. A receita rende bastante. Toamra que muitas pessoas possam fazer isso, como fazemos um bolo em casa, por exemplo. è uma simples trasnformação de ingredientes! O resultado é indiscutível quanto se pensa na natureza.

  5. Maycon Queiroz's Gravatar Maycon Queiroz
    27 de maio de 2011 at 16:06 | Permalink

    Atendendo a sua recomendação, fui conferir os post recomendados, referentes a horta. Achei muito interessantes, especialmente o caso do pimentão na mochila, bem excêntrico. Gostaria de saber o resultado da experiência, o planta vingou, deu frutos?

    Este último post, o sabão. já é caso antigo e bastante difundido até. Mas é sempre bom testemunhar novas experiências, para ir tendo ideias para o futuro. O adubo, se não causar mal cheiro vou implementar em minha casa, se eu não der início á horta, servirá para as plantas do jardim, que estão carentes de fertilizantes.

    Você faz parte de um grupo que, pelo que pude perceber, põe a mão na massa e vai atrás de novs experiências seja onde for. Como vi no post que fala dos ovos. Isso eu não tenho como fazer, pois meu trabalho não me disponibiliza tempo.

    Pude perceber que o blog pertence a empresa Conectar Comunicação, que lhe pertence. Essa empresa faz exatamente o que, uma vez que se destina a ser sustentável em sua ações. O blog, por si só, já é algo, mas o que faz de mais sustentável?

    Maycon

  6. claudia's Gravatar claudia
    27 de maio de 2011 at 18:47 | Permalink

    Maycon,
    O pimenteiro na mochila já deu umas safrinhas e agora está cheio de frutinhos pequenos. Daqui a duas semanas vou colher mais uma meia dúzia. Como a terra é pouca, precisa adubar de vez em quando com bokashi (adubo orgânico que compro em loja agrícola) e também com húmus das minhas minhocas, casca de ovo moída e pó de café. Outra coisa legal é borrifar o chorume do minhocário nas folhas: é um adubo poderoso! Estou aprendendo agricultura doméstica aos poucos e ainda sou muito inexperiente.
    Também não tenho como instalar um galinheiro em casa, quem sabe algum dia… Mas faço questão de comprar ovos de produtores alternativos, que não maltratam os animais nem os enchem de produtos químicos e remédios.
    A Conectar Comunicação é uma empresa de comunicação corporativa que criei em 2003. Há cerca de um ano, abri mão dos clientes “normais” para atender apenas empresas relacionadas ao mundo orgânico, ao comércio justo e outras iniciativas sustentáveis, em geral bem pequenas, pois esse setor ainda não tem poder econômico e eu trabalho para ajudá-las a crescer e influenciar outras empresas. O site está um pouco desatualizado. Em breve colocarei as novidades. Se vc me disser qual é a sua cidade, talvez eu possa indicar fornecedores na região. Abs!

  7. Maycon Queiroz's Gravatar Maycon Queiroz
    30 de maio de 2011 at 16:45 | Permalink

    Perdoe a minha distração, tinha visto sua pergunta em relação à cidade em que moro, mas na depois de ler alguns posts sugeridos, fui comentar o último e me esqueci de responder sua pergunta. eu mora em São Roque, no KM 60 da rodovia raposo tavares, para quem está em São Paulo fica a cerca 45 minutos de caro pela rodovia.
    analizando bem minha possibilidades e principalmente, disponibilidade de tempo acho difícil conseguir copiar a horta. O que quero fazer é levar a sacola para o supermercado, inclusive, ao ver uma promoção da loja virtual Fnac, onde ao comprar qualquer livro no valor igual ou superior a 30 reias ganhava-se uma sacola, ela está em minha casa. Eu costume usá-la porque não tenho hábito de ir ao supermercado, mas, caso minha rotina mude irei usá-la com certeza. Já estou tentado a família a aderir.
    Minha área é mesmo a educação. Cada um luta com as armas que tem, e eu acredito que a minha é mais na divulgação. O trabalho em escolas ainda é a melhor solução, mesmo para o presente. Eu também não me preoculpo só com a questão ambiental, problemas sociais como drogas e violência também atraem minha atenção. A questão ambiental, as vezes só no consumo consciente, como você conhece a área, fico agradecido se me disser de quem devo comprar, com consciência de que, mesmo que minimamente, estou fazendo alguma coisa
    Maycon Queiroz

  8. 4 de setembro de 2012 at 10:45 | Permalink

    Olha preciso muito da ajuda de vcs, tenho apenas 15 amos e preciso fazer algo interessante sobre Sustentabilidade. Gostei muito do sabão sustentavel, mais minha feira de ciência é dia 06/09/12 já, estou super nervosa e não sei o que fazer, por favor gostaria de saber se posso cortar o sabão menos de 3 dias? Muito Obrigada! *_*

  9. Virgínia's Gravatar Virgínia
    24 de março de 2013 at 16:22 | Permalink

    Prezada Silvia,
    Já conhecia a sua receita e já a experimentei há muitos anos atrás, só não colocava o amaciante, pois naquela época não o usávamos. Porém, não tenho o hábito de usar fritura na minha alimentação. Poderia usar o óleo natural, isto é, sem ter sido esquentado (cozido)? Ou teria que esquentá-lo, como se o tivesse usado, e depois de frio, fazer a mistura para torná-lo ingrediente dessa receita?
    Ficar-lhe- ia muito grata se me respondesse.
    Um abraço,
    Virgínia

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