Dá para ser muito feliz consumindo menos

8. Somente o necessário

Compras demais, objetos demais e importância demais para os gadgets eletrônicos estão desviando a atenção daquilo que realmente vale a pena: aproveitar a convivência com as pessoas de quem a gente gosta.

No mês passado, fui comemorar o aniversário de uma amiga solteira num bar com música ao vivo. Na autêntica balada (programa raro para mim hoje em dia) o que mais chamou a atenção foi a quantidade de gente se fotografando com o celular em pose de contorcionista. Um minuto dançando, clic. Chegou alguém, clic. Beijo no namorado, clic. Hora do bolo, clic. Começou o show, clic. O pessoal na mesa, clic. Voltei para casa pensando no destino de tantas imagens digitais. Trocas de e-mail? O Orkut? O esquecimento completo? Para o meu gosto, a noite teve muita parafernália eletrônica e pouco olho no olho.

Numa bela tarde, fui visitar outra amiga, que está esperando o primeiro filho. Ela fez questão de mostrar o quarto do bebê, as roupinhas, os brinquedos, a babá eletrônica, os bichinhos de pelúcia, os presentes que já chegaram, o berço, a coleção de sapatinhos etc, etc. Tudo tão lindo e de bom gosto que os outros assuntos simplesmente não vingavam. Uma pena. Seria interessante discutir os sentimentos que rolam quando a gente está grávida. Já passei por isso e gosto de trazer à tona lembranças e trocar experiências. Já os tais sapatinhos – que talvez nem sejam usados – se tornarão inúteis quando os primeiros meses de vida do bebê, exaustivos e maravilhosos, passarem. E aí ficarão vagando pelo mundo durante décadas (ou séculos, se tiverem plástico na composição). Perto da grandeza daquele momento na vida da mulher e da criança, a importância dos equipamentos chiques é praticamente nula. Mas os objetos estavam no centro das atenções enquanto conversávamos.

Nós três – minha filha de sete anos, sua colega e eu – almoçávamos num dia qualquer. A convidada estava entusiasmadíssima com sua coleção de mochilas de uma marca cara e muito apreciada pelas crianças. Entusiasmada não: quase histérica! Falava alto sobre como tinha sido a recente incursão ao shopping para adquirir mais uma. Dava pulinhos de alegria ao enumerar as cores, os modelos, os brindes. A comida esfriava e minha filha já estava começando a se sentir por baixo, já que ela tem “só” uma peça da tal grife. Decidi conversar com elas sobre o fato de ser muito bom possuir algo bacana. No entanto, como isso está longe de ser a essência da vida, melhor não idolatrar as coisas.  

Agora o papo era com mães de adolescentes. Uma delas contou que o único lugar onde seus filhos podem passear livremente é o shopping. Com medo de deixá-los em lugares públicos por causa da criminalidade, sua saída foi incentivar programas completos por ali: cinema, lanche, compras, salão de beleza. Então o grupo todo começou a falar de lojas, liquidações e temas afins.

Já se sabe que não será possível alcançar a sustentabilidade com o nível atual de consumo. Teremos então que rever nossos hábitos, nossas palavras e nossos pensamentos. Inevitavelmente, isso significará abandonar excessos e tomar para si “somente o necessário”, lema do urso Baloo, amigo do Mogli. Aliás, esse clássico é uma ótima dica de filme para alugar e ver com as crianças, sentindo o encanto de uma vida menos aparelhada.

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