Dá para ser muito feliz consumindo menos

142. Preparar para a emergência

O colapso no abastecimento de água é uma ameaça real. Enquanto o governo dorme, vamos arregaçar as mangas e fazer o que está a nosso alcance?

O post vai ser curto porque o momento pede menos palavras e mais ação. Finalmente a mídia começa a noticiar que existe uma possibilidade real de colapso no abastecimento de água, o que dispensa explicações sobre o contexto. Só que os governantes continuam paralisados. Então, como diz um amigo, a política pública por enquanto vai ser a política do público.

Em primeiro lugar, é urgente reduzir drasticamente o consumo. Medidas suaves a essa altura pouco adiantarão. Talvez nem a economia doméstica de guerra. Mas pelo menos vai servir como treinamento para o que vem por aí.

Importante ficar claro que colapso é diferente de racionamento. Raciona-se enquanto ainda existe água nos reservatórios. Quando acabar, acabou. A água não virá mais dos canos e sim do caminhão pipa, dos postos de distribuição instalados pelo governo, do subsolo, do rio, da chuva, de onde for. Claro que o estoque de água mineral do supermercado não vai durar nem 15 minutos.

Como a calamidade ainda não chegou, o quanto antes iniciarmos os preparativos para lidar com ela, melhor. Precisaremos ter calma e solidariedade, duas características que não são nosso forte, mas está aí uma boa oportunidade de aprendizado.  Precisaremos rever o funcionamento das cidades e a atividade econômica. E teremos que encontrar água de forma alternativa. Para lidar com a contaminação química e biológica serão necessárias análises em laboratório e destinação específica para águas de qualidade diferente.  Aliás, já está acontecendo um festival de perfuração de poços, muitos deles clandestinos e que podem estar captando água muito poluída. Ou seja, as iniciativas egoístas e espertinhas provavelmente não serão a melhor resposta à crise.

Então o que podemos fazer?

- É prudente construir cisternas (www.cisternaja.com).

- Edificações que bombeiam a água do lençol freático incessantemente para as sarjetas deveriam estar analisando a qualidade de sua água e preparando esquemas para aproveitá-la. Não para cozinhar ou beber, é claro. Mas para manter os banheiros funcionando, por exemplo.

- Existem nascentes nas cidades e precisaremos recuperá-las. Ativistas estão fazendo um trabalho sensacional nesse sentido. O pessoal tem um grupo nas redes sociais que vale a pena acompanhar: https://www.facebook.com/existeaguaemsp?fref=ts.

- Enquanto  lidamos com a emergência, será preciso construir a solução. Se quisermos a chuva de volta, a tarefa que temos pela frente é reflorestar o país. A começar pelas áreas de manancial e margens dos rios. Vamos a ela!

A conversa sobre a escassez de energia fica para uma próxima ocasião.

Para entender as causas da crise:
http://conectarcomunicacao.com.br/blog/135-dossi-crise-da-gua/

http://www.ccst.inpe.br/wp-content/uploads/2014/10/Futuro-Climatico-da-Amazonia.pdf

 

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141. Lavar roupa na bacia é divertido

As roupas vão sendo promovidas da água com sabão para o primeiro e depois segundo enxágue, passando pela cadeira furadinha para escorrer.

Com 50 litros de água, 4 colheres de sopa de sabão de coco em pó, algumas esfregadas com sabão de coco em pedra e um tantinho de exercício ficou tudo limpo. E a água restante regou a horta!

Há cerca de 2 anos resolvi lavar roupas na bacia em vez da máquina (que só uso para centrifugar). Para economizar água e reaproveitar. Achavam que eu estava louca. Hoje em dia, quando conto isso, ainda vejo olhares horrorizados, como se fosse uma tortura medieval. Mas adoro! Abandonei primeiro o amaciante (inútil e cheio de química pesada), depois os sabões “normais”, fortíssimos, cujo cheiro hoje em dia não suporto nem de longe. Agora é só com sabão de coco. E estou em fase de testes para turbinar a lavagem. A tal ecoball não acho que funcione muito, mas tem quem aprove (https://www.youtube.com/watch?v=VWflBMq2e24). Bicarbonato, água fervendo (para roupas de cama), vinagre, enzimas, vou experimentando mas ainda não cheguei na fórmula perfeita e aceito sugestões.

 Começo pelas roupas mais claras e dá para reaproveitar a água para as próximas lavagens. Manchas e partes mais sujas são esfregadas com sabão de coco em barra. Com cerca de 50 litros lava-se um montão de roupa (o ciclo das máquinas consome mais de 100, se não me engano).  Aí nas fotos você vê: 2 fronhas, 2 lençóis de casal, 1 toalha de banho, 1 toalha de rosto, 4 camisetas, 3 bermudas, 1 calça, 11 peças íntimas.

100% da água que sobra misturo com outras águas utilizadas na cozinha (vale tudo que não tenha gordura ou muito sal), às vezes chorume e enzimas,  e rego as plantas.

Além disso a lavação é um ótimo pretexto para tomar banho de sol no jardim. Veja o passo-a-passo (e desculpe a desorganização das fotos, esse wordpress tem mil bugs na hora de mexer com imagem).

Antes de ir para o tanque, duas dicas: o post da Neide Rigo que menciona suas experiências incríveis na lavandeira (http://come-se.blogspot.com.br/2014/10/como-manter-sua-horta-e-seu-jardim.html) e esse projeto no Peru que leva soluções de baixo custo a comunidades carentes (https://www.youtube.com/watch?v=YdXaL9DlEqs).

Primeiro é pegar o material (bacias, sabão, ecoball, cadeira furadinha, balde de água recolhida no chuveiro, saco de roupa)

Aí é separar pelas cores (brancas, claras e escuras), deixando a roupa de cama para ser lavada antes.

Coloquei cada lençol numa bacia com 10 litros de água e 2 colheres de sabão. Ficam de molho no sol para ajudar no branqueamento. No inverno, uso água fervente.

O lençol escorre na cadeira furadinha que era do escritório e agora virou da lavanderia. Junto as duas águas numa bacia só e coloco as roupas claras.

 

Os lençóis vão coarar na grama e lembro da infância, quando minha mãe e avó faziam isso no quintal.

 

Enquanto isso, esfrego os locais onde a sujeira aparece nas roupas claras com o sabão de coco em pedra. De chapéu que o sol está forte.

 

Os lençóis voltaram e estão enxaguando em 20 litros de água novinha, as roupas claras escorrem e as coloridas vão para a bacia com água e sabão.

 

Antes de enxaguar as roupas claras passo na centrífuga para ajudar a retirar o sabão.

 

Chegou a vez de esfregar as roupas coloridas. É hora da dança das cadeiras.

 

As roupas vão passando de uma bacia para outra e antes de mudarem de estágio espremo na cadeira e coloco um pouco na centrífuga.

 

O lençol já está limpo e estendido..

 

E as outras roupas vão seguindo a trilha, do enxágue, para a centrífuga e para o varal.

 

O capítulo roupas está encerrado. Agora é fazer o manejo da água.

 

Essa é a água que sobrou: o sabão praticamente sumiu e essa cor vem sobretudo dos pigmentos das roupas.

 

Junto tudo na mesma bacia, acrescento água de reuso vinda da cozinha, chorume do minhocário e enzimas (que algum outro dia explico).

Final feliz: 100% da água vai ajudar a regar as plantas!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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140. Somos os Silva,o Povo da Selva

Vamos semear novamente nossas matas ou esperar o deserto nos engolir?

Era uma vez um país gigante coberto de florestas (de onde vinha toda sua riqueza), cujo povo chamava-se predominantemente Silva (que em latim significa selva). As árvores pareciam infinitas e durante séculos forneceram muita madeira. Pouco a pouco, porém, foram sendo substituídas por tanta lavoura de açúcar e café que deu para saciar a humanidade inteira. Até que chegou o tempo de ir lá fundo no território fazer pasto, plantar milho e soja para abastecer com ração transgênica os modernos homens, porcos, bois e galinhas.

Viver no mato não era mesmo o sonho de seus habitantes. Muito por ganância, arrancaram a vegetação natural de cada cantinho para tirar mais e mais carne, cana, commodity. Além da sede de lucro, outras engrenagens moveram a máquina de moer árvore. Uma delas, o trauma atávico dos antepassados forasteiros diante da selva assustadora. Já os antepassados nativos viviam muito bem na floresta, mas não eram “civilizados” e por isso foram enxotados até das árvores genealógicas. Quando o desejo de jogar fora a identidade indígena tropical turbinou-se pelo sonho de virar cowboy do Texas ou patricinha de Beverly Hills, lá se foram de vez as árvores.

Clareiras esparsas viraram imensas regiões desmatadas cada vez mais contínuas até que…  cadê a chuva?

A vontade de progresso foi tamanha que esqueceram um detalhe: só lugares como a Suíça recebem água das montanhas nevadas. Quem abastece o Brasil é a floresta. Sem floresta, não tem rio, não tem chuva.

E agora?

 

PARA SABER MAIS

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139. Jornalistas de roça e fogão

 

Esse é o Michael Pollan

Michael Pollan é jornalista, tem horta em casa e cozinha para a família. Eu também, eu também, eu também! Então Pollan virou meu amigo imaginário e, como está chegando ao Brasil, deve aparecer nas manchetes em breve. Aliás, o movimento das hortas comunitárias e da agroecologia em São Paulo está cheio de colegas nossos de profissão. Por que será que os jornalistas estão ficando doidos por uma enxada?

 

Que eu saiba, o ativismo culinário dos jornalistas começou com Carlo Petrini em 1986, quando a rede Mc Donald’s abriu um de seus restaurantes na Piazza di Spagna, em Roma, ponto simbólico da capital italiana. Foi a gota d’água para Petrini, que já estava muito incomodado com o sumiço do saboroso pimentão quadrado d’Asti, espécie típica do Piemonte que vinha sendo substituída por variedade híbridas sem gosto. Vieram com fast-food e ele inventou o Slow Food, movimento que hoje está em 150 países (inclusive no Brasil) e tem mais de 100 mil membros. A turma age em prol do direito ao prazer na alimentação, do respeito ao meio ambiente e aos agricultores e chegam até mesmo a salvar variedades de alimentos da extinção.

Conheci Michael Pollan em 2007, quando foi lançado “O Dilema do Onívoro”. Nosso relacionamento se aprofundou com a leitura de “Em Defesa da Comida” e de “Cooked” (que está saindo no Brasil como “Cozinhar”, título lindo!). As aventuras agropecuárias de Pollan começam na horta de casa e incluem matar frango em abatedouro artesanal, caçar javali na floresta, estagiar em fazenda orgânica, fazer queijo em mosteiro, preparar vinho, cerveja, pão… Embora nunca o tenha visto, trocamos ideias por telepatia sobre as hortaliças do quintal e as tarefas diárias de preparar refeições para a família. Pollan está chegando para a Flip, onde vai lançar o “Cooked” e em seguida passa por São Paulo. Lá vou eu com os livros debaixo do braço para a fila dos autógrafos.

Na cena paulistana das hortas comunitárias e ativismos agroecológicos, os colegas jornalistas também são muitos. A começar pela querida Tatiana Achcar, que inventou os Hortelões Urbanos, grupo do Facebook que hoje é ponto de encontro de quase 10 mil plantadores de comida (https://www.facebook.com/groups/horteloes/). Tem também o Marcio Stanzani, diretor da AAO – Associação de Agricultura Orgânica (http://aao.org.br/aao/ ). Já a coleguinha Fernanda Danelon criou o Instituto Guandu (http://institutoguandu.com/) , que faz o importante  trabalho de transformar em adubo os resíduos orgânicos de restaurantes. Mariana Belmont vive articulando com os agricultores de Parelheiros e Francine Lima criou o canal “Do Campo à Mesa” (http://canaldocampoamesa.com.br/) para mostrar as maracutaias dos produtos alimentícios industrializados.

Hoje em dia me apresento como “jornalista e agricultora urbana” e acho que as duas atividades combinam muito bem. Aliás, os mutirões das hortas comunitárias parecem reuniões de pauta com tanto colega de profissão. Não imagino por que justamente a minha categoria está entusiasmada com as enxadas, mas percebo que as atividades de plantar e cozinhar complementam perfeitamente o esforço  intelectual da escrita. Aprendi também que cultivar legumes na praça é uma boa maneira de comunicar ideias sobre o relacionamento da nossa sociedade com a alimentação, os agricultores e o meio ambiente. Só que quando estou lá brincando de camponesa nem lembro disso, já que fico muito ocupada em ser feliz.

Quer bater um papinho com o Pollan? Boa entrevista essa do jornal português Público: http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/esta-a-comer-comida-verdadeira-1663742

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138. Cada gota importa

Resolvi compartilhar as medidas de economia de água do meu cotidiano. Sim, algumas demandam tempo e disposição. Não, não estou sugerindo que todos sigam as instruções. Coloquei minha privacidade aquática em segundo plano pensando em colaborar com o esforço de guerra que no momento se faz necessário. Dispenso as piadas e o rótulo de xiita. Obrigada pela compreensão.  

Quando se fala em educação ambiental o que vem à cabeça geralmente é uma criança pequena regando uma plantinha. Só que, nas minhas andanças por aí, percebo que são os adultos que mais precisam de aulas desse tipo. A começar por nossos governantes, quase todos analfabetos ambientais (além de irresponsáveis). No ano passado, é importante lembrar, nossa presidenta abaixou as tarifas elétricas para estimular o consumo e, consequentemente, a vazão das represas. Já no âmbito estadual os desmandos com os mananciais talvez sejam mais numerosos do que os grãos de areia do Saara. E enquanto a água baixava silenciosamente, a sociedade fingia não escutar os gritos de socorro dos “ecochatos”. Quem tiver interesse em mergulhar em contexto e perspectivas dessa catástrofe anunciada, há algumas semanas publiquei o “Dossiê Crise da Água” (http://conectarcomunicacao.com.br/blog/135-dossi-crise-da-gua/).

Só que no momento atual, analisar o cenário e reclamar é pouco, embora a participação no debate político sobre o tema seja importantíssima. Sabemos que a tubulação da Sabesp tem muito vazamento e que o governo não pode fugir do papel de principal responsável pela crise. Mesmo assim, agora cabe a todos economizar cada gota e torcer por chuvas generosas na próxima temporada, pois se tivermos mais uma primavera e verão desérticos, experimentaremos em 3D e 5 S (sentidos) as emoções de um filme-catástrofe.   

Há anos venho aprimorando atitudes domésticas para diminuir o consumo de água em casa. Nos últimos meses o gasto mensal da família (4 pessoas, um cachorro e uma horta) estabilizou em 7m3, o que faz a conta d’água ficar em torno de R$ 20. Ainda não tenho sistema de captação de água da chuva e de tratamento doméstico de efluentes, sonhos de consumo que espero um dia alcançar. Como o hardware arquitetônico por aqui é padrão, o que faz a diferença é o software do comportamento humano. Essas são algumas medidas de economia de água do meu cotidiano:  

PRINCÍPIOS GERAIS
* Antes de abrir uma torneira lembrar que a água é a fonte da vida e deve ser reverenciada mesmo quando abundante. Perguntar-se: preciso mesmo de água tratada e potável para o que pretendo fazer? Será que eu consigo atender a essa minha necessidade reutilizando água?
* Lembrar que todo líquido que escoa pelo ralo vai para o esgoto. Perguntar-se: a água que acabei de usar precisa mesmo ir para o esgoto? Será que eu consigo armazená-la para um uso futuro?

NO BANHEIRO
* Colocar um balde embaixo do chuveiro para recolher aquela água que cai antes de esquentar. Usar essa água para lavar roupas ou regar as plantas.
* Deixar a vazão do chuveiro bem pequena.
* Colocar uma bacia grande de alumínio dentro do box e ficar dentro dela durante o banho. Posteriormente usar essa água com sabão para a descarga. Isso ajuda também a controlar o tempo da autolavagem: quando a bacia está cheia, acabou!
* Escovar os dentes com mínima quantidade de água. Não costumo usar copo, mas é um bom jeito de controlar. Meu método: colocar uma pequena bacia na pia para reaproveitar tanto a água da escovação quanto a de lavar as mãos. Essa água vai para o balde da descarga. 

NA COZINHA
* Colecionar água com vestígios de cerveja, açúcar, farinha, frutas, legumes e tudo que não seja muito oleoso. Os recipientes vão sendo pré-lavados e as plantas recebem regas vitaminadas. Às vezes deixo um balde ao lado da pia para ir recolhendo essas pequenas quantidades de água que no final do dia serão incorporadas à rega.
* Limpar bem toda a louça antes de lavar. Um pouco da água quente usada para cozinhar macarrão ou alguma outra água de reserva do cozimento ajuda. Depois de molhar a louça, pego algumas folhas de boldo da horta e esfrego nos pratos e panelas. A crosta de sujeira vai embora e as folhas vão para a composteira. Toda a água da pré-lavagem serve para regar o  jardim.
* Guardar os bagaços de limão e laranja na geladeira para esfregar nos pratos, travessas, frigideiras e panelas que estão muuuuito engordurados.
* Lavar as mãos com uma bacia embaixo e depois reutilizar a água.
* Lavar frutas, verduras e legumes usando a bacia.
* Cada pessoa da família usa sempre o mesmo copo para beber água e ele é lavado apenas uma vez por dia.
*Aposentar a máquina de lavar-louças. Nenhuma dá conta dos resquícios de um jantar inteiro com cerca de 10 litros (que serão inteiramente reutilizados) como no método da bacia.

EM FRENTE AO ESPELHO
* Planejar-se para o uso racional de roupas: nada de enviar para a lavagem várias trocas por dia.

NA LAVANDERIA
* Lavar roupas usando bacias e deixar a máquina apenas para centrifugar entre cada fase (lavagem, 1º enxágue e 2º enxágue). O conteúdo de cada bacia pode ser reutilizado. Inicio com lençóis, toalhas e roupas brancas. Como não uso alvejante e a limpeza é só com sabão de coco, a água fervente é necessária para essa categoria. No final do processo essa água pode ir para a descarga, limpeza do quintal, de carro e outros usos menos nobres. A princípio parece confuso e complicado, mas vai ficando simples com o tempo. Brincar de lavadeira de antigamente está longe de ser um sacrifício para mim: é divertido, terapêutico e meditativo, eu garanto.

DA PORTA PARA FORA
*Calçada e garagem não precisam de banho. Basta varrer. Se tiver cocô e xixi de cachorro, um balde apenas no local resolve. Aquela água recolhida na bacia debaixo do chuveiro funciona bem para isso.
* Reduzir as áreas externas pavimentadas. Onde tem jardim não precisa esfregar o chão. E no jardim puramente ornamental vale a pena colocar espécies mais resistentes, que serão regadas apenas pela chuva.
* Lavar carro não é prioridade. O meu lavo uma vez por ano mais ou menos, com dois ou três baldes de água de reúso. Para quem não quer ser tão radical, uma vez a cada dois meses acho que está bom. Jamais usando o esguicho.


PARA TERMINAR, UMA PALAVRINHA SOBRE EMPREGADOS DOMÉSTICOS
O Brasil é um país esquisito onde boa parte da população jamais limpou o próprio banheiro. Onde existe a crença de que esse serviço é repugnante, mas existe um tipo especial de pessoa que não sente nojo nem se importa em fazê-lo: a empregada doméstica. Mas aí essa categoria profissional costuma ser acusada de desperdício de água e de produtos de limpeza. Será que as cachoeiras espumantes não são uma estratégia para driblar a aversão?

Não estou criticando ninguém, até porque alguns anos atrás eu estava no time das patroas e em minha casa havia uma mensalista que se encarregava de praticamente todo o serviço doméstico. Mas mudei de vida e passei a encarar a vassoura e o tanque com maior frequência. Ainda conto com a inestimável ajuda de uma faxineira, mas as tarefas são divididas entre eu e ela. No primeiro mês pós-demissão da antiga empregada, a conta de água veio 6 mil litros menor. Não a culpo.

 

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137. Os bondes do Plano Diretor de SP

Tenho acompanhado um pouco os trâmites do Plano Diretor de SP e minha ignorância sobre planejamento urbano continua quase infinita. Mas percebo que não só a Câmara como também o Facebook virou um campo de batalha em que diversas facções emitem opiniões absolutas e até insultos, muitas vezes desqualificando quem pensa diferente. Nesse cenário confuso os pontos de vista costumam variar de acordo com o bonde em que está embarcado o interlocutor.  Os que já identifiquei até agora são:

BONDE IMOBILIÁRIO – É a turma da construção civil tentando transformar cada metro de terreno num espigão. Deve ter gente honesta e conscienciosa no veículo, mas predomina a impressão de que ele está sendo guiado pelo pessoal que quer lucrar o máximo e o mais rápido possível com a demanda reprimida por habitação na cidade. E depois, é claro, desfrutar a vida em suas coberturas triplex, casas de veraneio e paraísos turísticos pelo mundo afora.

BONDE DA MORADIA – Movimentos populares interessados em habitações decentes subsidiadas no centro expandido, com a demanda justa por dignidade e não passar 4 horas por dia em trânsito. Resta saber se não haverá a especulação imobiliária versão baixa renda, com essas moradias sendo revendidas com ágio ou entrando em esquemas obscuros.

BONDE VERDE – Ambientalistas preocupados com áreas e zonas de proteção ambiental, preservação de nascentes, de mananciais, mais parques e áreas verdes, menos carros nas ruas. É nesse que embarquei.

BONDE DOS REMEDIADOS – Moradores de bairros já estabelecidos, que não querem adensamento, verticalização e eixos de transporte em suas vizinhanças.

O fato é que vivemos na mesma cidade e, se quisermos que ela melhore, cada um precisará ouvir os argumentos dos passageiros dos outros bondes e estar disposto a negociar com eles.

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136. Manifesto a favor do ar, da água e do verde de SP

A maior cidade do Brasil vive uma situação-limite em relação aos recursos ambientais. A crise da água é o problema mais evidente no momento, mas também existem crises do ar, do verde e dos resíduos, entre outras, que igualmente podem evoluir para o colapso. O Plano Diretor Estratégico que está sendo apresentado traz (ou mantém) várias conquistas, talvez ainda tímidas, das quais não podemos de forma alguma abrir mão.

Algumas delas:

- O conceito de Zona Especial de Proteção Ambiental (ZEPAM) e Área de Proteção Ambiental (APA) e, sobretudo, sua disseminação. E é muito importante que planícies aluviais e áreas de nascentes se tornem automaticamente ZEPAM;

- Estabelecimento da Zona Rural ao sul do município. A região de Parelheiros precisa oferecer à cidade água limpa, vegetação densa e de grande porte que amenize os problemas climáticos (regulação do clima local e sequestro de carbono), alimentos orgânicos e turismo ecológico. E não há como cumprir essa missão essencial se lá for instalado um novo aeroporto;

- Pagamento por serviços ambientais para aqueles que mantiverem nascentes e remanescentes florestais. Vale lembrar que foi por meio desse tipo de política pública que Nova York conseguiu escapar de uma crise de abastecimento de água;

- Criação de novos parques e de uma política de arborização efetiva;

- Programa de Recuperação Ambiental de Fundos de Vale;

- Avaliação de impacto das novas edificações nas águas superficiais e subterrâneas da cidade;

- Atenção ao desafio dos resíduos sólidos, focando primeiramente na não geração de lixo. São Paulo tem força para pressionar a indústria a repensar suas cadeias produtivas visando a minimização de resíduos. São Paulo tem força para implantar uma ampla política de compostagem dos resíduos orgânicos, que hoje representam mais de 50% do volume enviados aos aterros sanitários.

Muitas vezes as demandas ambientais são vencidas por interesses econômicos imediatistas que visam um suposto desenvolvimento econômico cujas riquezas em geral são repartidas entre poucos. Por isso é importante lembrar um provérbio indígena:

“Quando a última árvore tiver caído,
…quando o último rio tiver secado,
…quando o último peixe for pescado,
…nós vamos entender que dinheiro não se come.

PARA ASSINAR A PETIÇÃO ONLINE, QUE SERÁ ENTREGUE AOS 55 VEREADORES DE SÃO PAULO, CLIQUE AQUI:  https://www.change.org/pt-BR/peti%C3%A7%C3%B5es/vereadores-de-s%C3%A3o-paulo-aprovem-e-ampliem-as-conquistas-ambientais-do-plano-diretor-de-s%C3%A3o-paulo

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135. Dossiê Crise da Água

Enquanto os reservatórios do país estão em níveis baixíssimos, os governantes fazem seus cálculos politiqueiros em cima da tragédia anunciada e a mídia apresenta uma cobertura que deixa a desejar, aprofundando apenas nas fofocas dos bastidores do poder. A sociedade ainda não acordou para debater as causas do problema e as atitudes necessárias para sobreviver enquanto as chuvas não voltam. Esse post reúne opiniões de especialistas e outros artigos sobre o tema que me inspiraram a criar a imagem ao lado .

O futuro relator das Nações Unidas para o Direito à Água e ao Saneamento Básico é o mineiro Léo Heller. E ele avisa: “Nio curto prazo nada pode ser feito pela seca do Sudeste”. http://www.ecodebate.com.br/2014/11/26/no-curto-prazo-nada-pode-ser-feito-pela-seca-no-sudeste-afirma-futuro-relator-da-onu-para-o-direito-a-agua/

Apresentado internacionalmente em 31/3,  o Relatório sobre Impactos, Adaptação e Vulnerabilidades às Mudanças Climáticas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) aponta que as mudanças climáticas já observadas e as projetadas para as Américas do Sul e Central colocarão em risco a segurança hídrica das regiões e terão impactos diretos no abastecimento doméstico e industrial e em setores fortemente dependentes de água, como o de geração de energia hidrelétrica e a agricultura. http://www.ecodebate.com.br/2014/04/10/mudancas-climaticas-poem-em-risco-seguranca-hidrica-na-america-do-sul/

 Philip Fearnside, climatologista norte-americano, mora  em Manaus e recebeu, ao lado de outros cientistas do IPCC, o  Nobel da Paz em 2007. De acordo com ele, as inundações na região Norte e a seca no Sudeste estão interconectadas. Trechos da reportagem feita por Leão Serva para a revista Serafina de abril de 2014: “Na Amazônia, ainda nos anos 1980, Fearnside escreveu que se nada fosse feito, a floresta como sistema climático iria desaparecer em 50 anos. Passaram-se 25, o desmatamento continuou e vários fenômenos associados também. O principal deles é a redução da umidade naquela área, porque o desmatamento faz com que a água das chuvas não seja retida. Outra consequência do desmatamento é que a água das chuvas escorre diretamente para a calha dos rios, provocando enchentes maiores. Uma terceira consequência do desmatamento em grande escala da região, que Fearnside detalhou em 2004, mostra que menos água da Amazônia seria transportada pelos ventos para o Sudeste durante a temporada de chuvas, o que reduziria a água das chuvas de verão nos reservatórios de São Paulo.” http://www1.folha.uol.com.br/serafina/2014/03/1431548-para-ganhador-de-premio-nobel-cheias-no-norte-e-secas-no-sudeste-estao-conectadas.shtml . Portal Ecodebate traz mais dados sobre desmatamento nas bacias hidrográficas http://www.ecodebate.com.br/2014/05/16/desmatamento-nas-bacias-hidrograficas-agravou-crise-da-agua-em-sp/

Marc Dourojeanni, professor emérito da Universidade Agrária de Lima (Peru) e ex-chefe da Divisão Ambiental do Banco Interamericano de Desenvolvimento, relaciona as inundações da Amazônia e a seca que virána Região Norte ao desmatamento nos Andes: “Ao eliminarem-se as florestas a água das chuvas escorre livremente, arrastando o solo em volumes cada vez maiores. Isto é tanto mais violento quanto maior seja a inclinação da pendente. A função de esponja se perde completamente e a água desce. Por isso as enchentes são seguidas de secas. A agricultura e a pecuária não ajudam em nada. Em geral aceleram muito a erosão.” http://www.oeco.org.br/marc-dourojeanni/28103-teimosia-antiga-e-as-enchentes-na-amazonia

Altair Sales Barbosa, professor da PUC-Goiás e um dos maiores especialistas do mundo sobre o cerrado declara que o bioma está praticamente extinto e com isso lá se vão as nascentes das grandes bacias hidrográficas do Sudeste. http://www.jornalopcao.com.br/entrevistas/o-cerrado-esta-extinto-e-isso-leva-ao-fim-dos-rios-e-dos-reservatorios-de-agua-16970/

Julio Cerqueira Cesar, professor aposentado de Hidráulica e Saneamento da Escola Politécnica da USP, explica o que a Sabesp deveria ter feito para garantir o abastecimento da população e por que não fez: “Em 1990/1995, eles já deveriam começar as obras de  novos mananciais. E poderiam fazer sem correrias, sem superfaturamento, e ir atendendo as necessidades da população”… “Na década de 1990, a Sabesp aderiu ao modelo neoliberal e passou a buscar o lucro a qualquer custo, independentemente dos direitos fundamentais do homem. Demitiu os engenheiros sanitaristas e advogados e economistas assumiram o comando. A Sabesp deixou de considerar o saneamento básico como problema de saúde pública. E passou a encará-lo como um negócio qualquer, se transformando num balcão de negócios.”… “Nós chegamos agora num ponto que vamos ter de suportar essa estiagem até começar a chover de novo. São seis meses de racionamento violento. O Cantareira representa metade da água de São Paulo. Não tem outro jeito, a não ser racionar.” http://www.viomundo.com.br/denuncias/julio-cerqueira-cesar-alckmin-e-sabesp-ja-estao-fazendo-racionamento-de-agua-ha-mais-de-2-meses-ele-e-dirigido-aos-pobres.html

Marussia Whately, urbanista e especialista em recursos hídricos, analisa os conflitos de interesse na Sabesp e também não vê solução em curto prazo. “Ainda é cedo para afirmar se a seca irá se prolongar em 2014 ou nos anos posteriores, então a curto prazo não resta outra alternativa a não ser a adoção de medidas drásticas para reduzir consumo: racionamento. A médio prazo, as medidas de redução de consumo devem continuar, somadas a medidas de conservação de água e sistemas de prevenção e gerenciamento de eventos climáticos extremos como esse.” http://raquelrolnik.wordpress.com/2014/04/14/a-crise-da-agua-em-sao-paulo/

Osvaldo Ferreira Valente, engenheiro floresta especialista em hidrologia, fala sobre riscos e oportunidades do pagamento por serviços ambientais na proteção de nascentes e como a agricultura pode colaborar para a melhor gestão de água. De acordo com ele, é preciso que as lavouras incorporem terraços, caixas ou cisternas de infiltração, barraginhas e plantios em nível. http://www.ecodebate.com.br/2014/04/30/uti-ambiental-a-agua-e-a-realidade-nua-e-crua-artigo-de-osvaldo-ferreira-valente/

Publicada pelo Centro de Estudos de Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (GVces), a Revista Página 22 (edição de maio de 2014) aborda o tema da página 14 a 35. Versão em PDF aqui, com ótima entrevista de José Machado, ex-prefeito de Piracicaba, ex-deputado federal e relator da Lei das Águas (9.433/97) e ex-presidente da Associação Nacional de Águas. http://www.pagina22.com.br/wp-content/uploads/2014/04/Pagina22_Ed84.pdf

A água do subsolo paulistano já contribui com 10m3 por segundo para o abastecimento da cidade. Mas esse recurso também está sendo mal gerido, com 60% de poços ilegais e a prática comum de edificações que avançam no subsolo e bombeiam incessantemente a água limpa do lençol freático para o esgoto. http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/05/1459709-pocos-podem-ajudar-na-crise-da-agua-dizem-especialistas.shtml

Água vai virar commodity? É o que discute Stela Goldenstein, diretora executiva da Associação Águas Claras do Rio Pinheiros, nesse artigo publicado pelo jornal Valor Econômico em 22/4/2014. http://www.cliptvnews.com.br/mma/amplia.php?id_noticia=51275

De Piracaia (SP), a jornalista Giuliana Capello conta como a criação de gado e as plantações de eucalipto estão detonando o armazenamento de água nas represas da região, que integram o Sistema Cantareira http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/gaiatos-e-gaianos/a-seca-o-sistema-e-o-suco-de-eucalipto/

Nascido e criado na região do tal Sistema Cantareira, o jornalista Leandro Beguoci relaciona o aumento da mancha urbana nos municípios de Caieiras, Mairiporã, Piracaia, Joanópolis, Nazaré Paulista, Franco da Rocha e Vargem ao colapso das represas. E os condomínios e casas de veraneio têm sua parcela de culpa pelo problema. http://gizmodo.uol.com.br/giz-explica-agua-sistema-cantareira/

As nascentes do Paraíba do Sul, aquele rio que virou motivo de briga entre os governos de São Paulo e Rio de Janeiro, também estão ameaçadas. http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/03/1431569-agua-esta-diminuindo-na-nascente-do-rio-paraiba-do-sul-dizem-vizinhos.shtml

Para piorar, no que se refere à energia a situação é para lá de complicada. Especialistas sugerem o início de um racionamento brando já. Veja o que diz Roberto Schäffer, professor de Planejamento Energético da Coppe/UFRJ: “O Brasil está entrando numa zona perigosa. O país quer passar uma impressão internacional de que está tudo bem, mas depois do Mundial devem vir medidas mais duras.” http://www.ecodebate.com.br/2014/04/04/brasil-deveria-iniciar-racionamento-de-energia-desde-ja-defendem-especialistas/comment-page-1/#co.mment-32151

Soluções para ao menos amenizar esse enorme problema existem e não são complicadas demais. Um exemplo vem de Nova York, onde a prefeitura  paga a fazendeiros que vivem distantes da cidade pela preservação das nascentes. E São Paulo tem uma lei boa quase secreta, mas que não “pegou” por enquanto: http://www.akatu.org.br/Temas/Agua/Posts/lei-para-uso-da-agua-sao-paulo.  Começam a ser desenhadas políticas públicas que remuneram proprietários rurais que mantém a a floresta de pé em volta das nascentes e proibem práticas ambientalmente danosas em regiões de mananciais. Mas isso só vai acontecer se a opinião pública acordar. http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2013/03/nova-york-cuida-dos-mananciais-que-abastecem-cidade-e-seus-turistas.html

Se continuarmos na inércia e não der sorte de cair do céu um montão de água nos próximos meses, viveremos ao vivo as emoções de um filme catástrofe, como contou o professor Antônio Carlos Zuffo (chefe do Departamento de Recursos Hídricos da Unicamp) ao jornalista David Shalom: “A situação é realmente grave e não envolve apenas os riscos de ausência do recurso para uso doméstico. Segundo Zuffo, antes de a população ficar sem água devem ser suspensas as outorgas para seu uso aos agricultores da Reserva da Biosfera do Cinturão Verde de São Paulo, que abrange 73 municípios em torno da capital, e às indústrias. A consequência disso seria um desabastecimento de certos produtos, como hortaliças, e demissões em massa de funcionários. A bola de neve prossegue: com o desemprego aumenta a violência; sem água, instituições de ensino e centros de compras fecham as portas; logo, a falta de higiene também faz surgirem as doenças.” http://outraspalavras.net/outrasmidias/capa-outras-midias/crise-de-agua-sp-reservatorios-podem-secar-em-outubro/

TRRIIIMMMM!

Tá com preguiça de ver esse monte de links? Então acesse apenas esse e em 6 minutos saiba o que é preciso saber sobre o assunto: https://www.youtube.com/watch?v=RsUD8CTDdAw&feature=youtu.be

 

 

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133. Pé na lama e fé na vida


 

 

 

 

 

 


 

Sabe o que é isso? A nascente do Rio Iquiririm, no Butantã, sendo reaberta por um grupo de cidadãos que deseja os rios de São Paulo limpos e livres.

(Registro em vídeo aqui: http://vimeo.com/90175873)

Essa crise hídrica da metrópole seria cômica se não fosse trágica, já que a Grande São Paulo é uma espécie de Veneza do planalto, construída sobre milhares de riozinhos e riozões, quase todos canalizados para criar ruas e avenidas. Daqui a 200 anos, se nossa civilização conseguir sobreviver à sinuca ambiental que criou, vamos beber água do córrego do lado de casa e já teremos esquecido aquele hábito ridículo de fazer cocô em água potável.

Enquanto estamos em 2014, um pessoal pensa grande e faz pequenas ações que mostram como a cidade poderia ser melhor e mais feliz se parasse de brigar com a natureza. A reabertura da nascente do Iquiririm foi um desses eventos de urbanismo-hacker que comprovam duas teses sobre utopia: 1) não é um lugar onde a gente chega e sim uma direção a seguir; 2) colocar em prática um sonho coletivo é um bom jeito de ser feliz e conhecer pessoas legais.

Quem explica o que foi feito é a Lu Cury: “Nós represamos a água num lago e o excedente continua caindo na boca de lobo, como antes. Mas o fato da água dessa nascente formar esse lago nesse terreno concretiza pras pessoas a necessidade de cuidar dela e de cuidar do entorno. Sábado tiramos de tudo daí desse charcão: saco de entulho de obra cheio, pneus de moto, de carro, cadeira, prato e cacos de vidro, latinhas, latões, garrafas, madeiras com pregos… Quem sabe agora com o lago fique claro que terrenos não construídos e com vegetação não são lixões a céu aberto.” E eu completo: se um dia houver sensatez e resolvermos renaturalizar os rios da cidade, sinalizar e fazer brotar de novo nascentes que um dia foram soterradas já é um grande adianto.

Na Superação Iquiririm, assim como nos mutirões de hortas comunitárias, tem criança, velho, cachorro, vizinho e gente de todo tipo. Às vezes rola pic-nic, pintura no muro, aula de alongamento, risada, violão. Quando chove e em área de nascente não falta lama para animar a festa. Acho esse tipo de programa infinitamente melhor do que passear no shopping, qualquer game, atração da TV ou das redes sociais virtuais. Sem falar que é tudo grátis e ninguém está nem aí para a roupa que você veste ou seu cargo na firma.

PARA PENSAR, PARTICIPAR, SE INSPIRAR
Iniciativa Rios e Ruas – http://rioseruas.com/

Entre Rios, a urbanização de São Paulo – http://www.youtube.com/watch?v=Fwh-cZfWNIc

Nas profundezas das águas da cidade (TED de Guilherme Castagna) - http://www.youtube.com/watch?v=T8caDcL4brQ

Chega de fossa (Como tratar o esgoto em casa) – http://www.youtube.com/watch?v=HQMgotBb7FQ

Falando sobre merda (TED de André Soares) – http://www.youtube.com/watch?v=VvleJrOkfGI

Watershed 2.0 (TED de Brock Dolman sobre adaptações urbanas às mudanças climáticas) - http://www.youtube.com/watch?v=Izf6D1LQlFE

Unindo o norte ao sul (entrevista do oceanógrafo Edmo Campos sobre aquecimento global) – http://www.pagina22.com.br/index.php/2013/10/unindo-o-norte-ao-sul/

Mutirões de Hortas Comunitárias em SP

  • Horta das Corujas (próximo à Av. das Corujas, Vila Madalena) – todos os domingos a partir de 10h. Mais infos no bloghttp://hortadascorujas.wordpress.com/
  • Horta do Ciclista (Av. Paulista entre Bela Cintra e Consolação, canteiro central) – primeiro domingo do mês a partir de 12h.
  • Horta da Vila Pompeia (Rua Francisco Bayardo, perto da Av. Pompeia) – todo domingo a partir de 11h com café da manhã comunitário.
  • Horta da Vila Anglo (Praça Antonio Resk, perto da Rua Heitor Penteado) – todo sábado a partir de 10h e terças 9h.
  • Horta do CCSP (Centro Cultural São Paulo, metrô Vergueiro) – último domingo do mês a partir de 9h com café da manhã comunitário.
  • Horta Comunitária do Pq Ipê (Rua Marujada, 53, Campo Limpo, perto do ponto final do ônibus Pq Ipê) – mutirões aos sábados a partir das 8:30
  • Horta do IEE USP – Instituto de Energia e Ambiente na Cidade Universitária. Mutirões a cada duas semanas, sempre aos sábados das 9 às 13hs.
  • Horta da Nascente- mutirões todos os domingos a partir das 16hs. Na Praça da Nascente-av. Pompeia, 2140, esquina com André Casado www.ocupeeabrace.com.br

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132. SP Zona Rural

 

Sítio Oyama: floresta, lavoura e nascentes

Vistoria participativa da Agricultura Limpa

A visita a um agricultor de Parelheiros e as muitas ameaças que o último refúgio de lavoura e floresta em São Paulo está enfrentando.

Moro em São Paulo desde que nasci e não conhecia Parelheiros. Voltei de lá com a sensação de que estive em outro mundo. 

Nas lonjuras ainda verdes do extremo sul de São Paulo existem cerca de 400 agricultores. Apenas 30 são orgânicos ou estão em processo de transição (os outros continuam jogando agrotóxico em plantações próximas às represas). Essa turminha assinou o Protocolo Guarapiranga, fundou a Cooperativa Agroecológica dos Produtores Rurais e de Água Limpa da Região Sul de São Paulo, mais conhecida como Cooperapas, e criou uma Organização de Controle Social (OCS) para a autofiscalização. Eles oferecem suas hortaliças sem veneno nas feiras orgânicas da Água Branca, Modelódromo (próximo ao Parque do Ibirapuera) e Parque Burle Marx. E, o mais importante, são os defensores de nossas águas.

Para garantir a qualidade do cultivo agroecológico, é necessário que o poder público e os consumidores fiscalizem. Aí que eu e alguns colegas entusiasmados com a importância de incentivar a agricultura limpa entramos: ajudando a vistoriar a lavoura. Embarquei nesse programa por causa do Henrique Paulo, horteleiro de quintal como eu. Ele é o cara que está articulando a ponte entre a turma das hortas comunitárias de SP e os agricultores ecológicos profissionais da cidade.  Um trabalho voluntário muito lindo. Estava conosco também a Fabíola Donadello, que tem mãos de fada para germinar sementes e levou para a ZR paulistana mudas que fez brotar em sua casa no Sumaré.   

Visitamos o Sítio Oyama, que produz umas 30 espécies de hortaliças inclusive algumas raras como berinjela japonesa (bem escura e fininha). No sítio rolou um encontro alegre e muito produtivo entre vários produtores de Parelheiros, alguns funcionários nota 10 da prefeitura e nós, os consumidores. Adorei conhecer as agricultoras Valéria Marcoratto, Vânia dos Santos, Maria José Kunikawa, Cida Oshi e Massue Shirasawa. Alguns dias depois estive na feira do Parque Burle Marx, comprei umas coisinhas deliciosas na barraca da família Shirasawa e encontrei o simpático Cícero, filho da Massue. É outra coisa levar para casa verduras entregues pelo próprio produtor e ainda por cima vindas de um local que a gente conhece!

Bom, voltando a Parelheiros, nosso encontro começou com uma feirinha de troca de sementes e em seguida a pauta da reunião foi cumprida rigorosamente e registrada em ata. Aí veio a vistoria. Com o maior orgulho, Ernesto Oyama mostrou os dois hectares onde família vive há 70 anos, quando o avô instalou ali uma granja. Em 2010 abandonaram os agrotóxicos e pouco a pouco estão se aperfeiçoando nas técnicas orgânicas. As sementeiras ficam à sombra de cerejeiras que fazem lembrar as origens nipônicas. Tem bastante mata nativa em volta dos campos cultivados e o córrego de água cristalina que brota da floresta é suficiente para regar. Tudo cultivado com o maior amor apenas pelo Ernesto e seus pais. O encontro terminou com um delicioso almoço caipiro-japonês que a Dona Tereza, mãe do Ernesto, preparou. Sentamos no terraço, ao lado de um tanque com carpas. Olhando toda aquela beleza, achei possível São Paulo um dia se tornar cenário de sonho.

Mas a situação atual de Parelheiros está mais para prenúncio de pesadelo e todos os 20 milhões de habitantes da megalópole deveriam estar muito preocupados com isso. Os problemas são os seguintes:

  1. Como já citado, são centenas de agricultores jogando agrotóxicos perto das represas. De lá para nosso copo e nossa panela é um pulo. Ou melhor, um cano.
  2. A região está sob forte pressão imobiliária. Enquanto o novo Plano Diretor, em vias de ser aprovado, tenta requalificar a área como rural, grupos se articulam para invasões de terra, criação de novos condomínios e conjuntos de prédios que fatalmente reduzirão a água disponível para a cidade e ainda por cima despejarão esgoto nos mananciais.
  3. Há um malfadado projeto de aeroporto na área, o que aumentaria o incentivo ao desmatamento, além de prejudicar a flora e fauna local.
  4. Se a região sul de São Paulo perder o verde, acabou de vez o cinturão florestal da cidade. Com isso, as nascentes de água diminuirão na proporção inversa do aumento de temperatura,  secura e poluição. Ou seja, viveremos literalmente num deserto.

O que fazer para impedir essa desgraça? Só pensava nisso durante o trajeto de volta. Saí do sítio do Ernesto por uma bucólica estradinha de cascalho cercada por floresta, peguei a Av. Senador Teotônio Vilela (ainda com bons nacos de verde em volta) e entrei no bairro cinza do Grajaú, onde peguei o trem sentido Osasco que corre ao lado do degradadíssimo Rio Pinheiros. Na estação que tem o nome do rio recuperei minha bicicleta e voltei pedalando para casa sem descobrir a resposta.

(As visitas aos sítios de Parelheiros acontecem todo mês. O ideal é ter 4 ou 5 consumidores acompanhando por vez. Qualquer pessoa pode participar e eu recomendo.)


 

 

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Dá para ser muito feliz consumindo menos.

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