Dá para ser muito feliz consumindo menos

131. Bem-vindo à Permacultura!

Essa palavra esquisita significa Cultura da Permanência, ou seja, o oposto da insustentabilidade. A permacultura traz muita esperança de conseguirmos fazer uma transição para a sociedade sustentável de forma suave e feliz. Venha!

Explicação mais detalhada sobre como surgiu e o que propõe a permacultura aqui: http://conectarcomunicacao.com.br/blog/99-um-2012-permacultural-para-voc/.

Há alguns meses estou envolvida na organização do Curso de Introdução à Permacultura Urbana da Subprefeitura de Pinheiros. Mal começou e já está se tornando um aglutinador de pessoas em prol de um jeito de viver mais harmônico e um catalizador de iniciativas transformadoras.

Como funciona? Todo mundo pode participar, todos são professores e alunos ao mesmo tempo, teoria e prática estão totalmente integradas.

Quer participar?

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130. 20 motivos para incentivar a agricultura urbana

Horta do Ciclista (Av. Paulista entre Bela Cintra e Consolação)

Esse post é de 2013 e chamava “18 motivos…”. Descobri mais dois:
19º – Valorizar quem traz consigo saberes desprezados pela sociedade de consumo, como a ciência e a arte de cultivar alimentos para subsistência. Essa turma — que inclui muitos idosxs, pobres, mulheres e analfabetxs das letras — é que está nos alfabetizando na lida com as plantas comestíveis.
20º – Reconstruir pontes entre as pessoas. Nesse momento de opiniões polarizadas e conflitos ideológicos, a agricultura urbana nos faz lembrar que todos nos alimentamos, que todos estamos ligados à terra e somos irmãos perante a natureza.

Daqui para frente vem o texto original…

Típico da nossa sociedade compartimentada, o viaduto é uma solução pontual e ineficiente para apenas um problema. Custa muito, em geral não resolve o congestionamento, mas consegue aniquilar a qualidade de qualquer espaço urbano. Uma horta comunitária em uma praça ou uma horta para comercialização nas zonas mais afastadas do centro representa o oposto: solução quase grátis, prazerosa e sistêmica para um montão de problemas. Senhores governantes: por que investir tanto em viadutos e tão pouco em agricultura urbana?

Quando comecei a plantar comida na cidade só estava pensando no primeiro objetivo dessa lista. Aos poucos, fui descobrindo todos os outros.  

BENEFÍCIOS AMBIENTAIS

 1 Menos pressão sobre os recursos naturais – Cada pé de alface produzido no quintal ou na horta da esquina dispensa espaço no campo, transporte e embalagem. Na verdade, no caso da hortaliça-símbolo da salada, até o método de colheita muda: você só retira da planta as folhas que vai consumir naquele momento e ela continua produzindo por mais alguns meses. É urgente que as populações urbanas reduzam a demanda sobre os recursos naturais, pois as cidades hoje ocupam 2% da superfície terrestre mas consomem 75% dos recursos.

2 Combate às ilhas de calor -  Áreas pavimentadas irradiam 50% a mais de calor do que superfícies com vegetação. Em São Paulo, a geógrafa Magda Lombardo constatou que a temperatura pode variar até 12 graus entre um bairro e outro. Não por acaso, a Serra da Cantareira e a região de Parelheiros são as mais frescas da cidade: é onde a vegetação se concentra.

3 Permeabilização do solo – Enchentes e enxurradas violentas são em parte resultado do excesso de pavimentação na cidade. E simples jardins de grama, onde o solo fica compactado, não absorvem tanta água quanto canteiros fofinhos das hortas.

4 Umidificação do ar  - As plantas contribuem para reter água no solo e manter a umidade atmosférica em dias sem chuva.

5  Refúgio de biodiversidade – Nas hortas comunitárias recuperamos espécies comestíveis que se tornaram raras (como caruru, ora-pro-nobis, bertalha), plantamos variedades crioulas (as plantas “vira-lata” que têm maior variedade genética e por isso são mais resistentes às condições climáticas adversas) e atraímos uma rica microfauna, especialmente polinizadores como abelhas de diversas espécies, que estão em risco de extinção provavelmente pelo uso de agrotóxicos nas zonas rurais. Sou voluntária da Horta do Ciclista e testemunha de que as borboletas, joaninhas e abelhas aparecem em plena  Avenida Paulista quando plantamos flores e hortaliças.

6 Redução da produção de lixo – Os alimentos produzidos localmente não só dispensam embalagens (que correspondem à maior parte do lixo seco produzido) como absorvem  grande quantidade de resíduo orgânico na fabricação de adubo e até materiais de difícil descarte como restos de madeira, que são usados na delimitação de canteiros.

7 Adaptação às mudanças climáticas – A emissão descontrolada de gases do efeito estufa está tornando o clima mais instável e imprevisível, o que é péssimo para a produção de alimentos. A agricultura urbana tem sido considerada uma importante alternativa para a segurança alimentar e existem estudos indicando que cerca de 40% dos alimentos podem ser produzidos dentro das cidades.  Para saber mais veja  http://conectarcomunicacao.com.br/blog/96-comida-de-amanh/

BENEFÍCIOS URBANÍSTICOS

8 Conservação de espaços públicos – Para explicar vou contar uma historinha: em 12 de outubro de 2012, quando fizemos o primeiro mutirão na Horta do Ciclista (http://pt.wikiversity.org/wiki/Horta_do_Ciclista) encontramos no local muito lixo, cacos de vidro e até fezes e seringa usada. A partir do momento que começamos  a cuidar daquele canteiro, a população passou a respeitar. Não houve depredação nem mesmo durante as grandes festas e manifestações que têm acontecido na Avenida Paulista.

9 Redução da criminalidade – Uma horta necessita de cuidados diários e se torna um local muito visitado. Famílias com crianças pequenas gostam de freqüentá-las, assim como  velhinhos, grupos de estudantes e um monte de gente bem intencionada em busca de uma canto pacífico na urbe. O clima comunitário naturalmente afasta quem está pretendendo cometer atos ilícitos. No Brasil ainda não há estimativas sobre isso, mas nos Estados Unidos vários estudos já foram feitos, alguns deles citados nesse artigo http://www.motherjones.com/media/2012/07/chicago-food-desert-urban-farming.

10 Vida local  – Um dos problemas das grandes cidades, particularmente de São Paulo, é o excesso de deslocamentos numa malha viária sobrecarregada. A agricultura — seja ela praticada como forma de lazer, trabalho comunitário ou profissão — fixa as pessoas no território diminuindo a demanda por transporte.

11 Contenção da mancha urbana – Se há incentivo para a produção agrícola nas franjas das cidades e a atividade se combina com turismo rural, diminui a pressão para desmatar e lotear.  Mas esse benefício a população e os agricultores não conseguem manter sem o apoio do poder público.

BENEFÍCIOS SOCIAIS E PESSOAIS

12 Renascimento da vida comunitária – As hortas promovem a integração entre pessoas de diferentes idades, origens e estilos de vida. Assim como os cachorros, são mediadores sociais muito eficientes. Não falta assunto quando há tanta coisa a admirar, tanta tarefa a compartilhar, tanta dica e receita a trocar.

13 Lazer gratuito – Plantar custa praticamente nada. É divertido, um bom pretexto para juntar os amigos e fazer um lanche comunitário e ainda dá para levar umas verduras para casa sem pagar.

14 Mais saúde – Agricultura é exercício e cada pessoa regula a intensidade. Do tai-chi-chuan contemplativo de joaninhas ao aero-power-enxadão, tem ginástica para todos os gostos. Além disso, mexer com a terra é terapia preventiva e curativa de depressão, ansiedade, adicção, sedentarismo, obesidade, entre outros problemas, sobretudo mentais. E nesse item tem até pesquisa brasileira para comprovar. A autora é Silvana Ribeiro, da Faculdade de Saúde Pública da USP: http://www5.usp.br/29818/agricultura-urbana-agroecologica-auxilia-promocao-da-saude-revela-pesquida-da-fsp/. Tem também o documentário “Saindo da Caixinha”. Sim, cuidar de uma horta pode substituir medicamentos psiquiátricos barra-pesada. https://www.youtube.com/watch?v=brrrX8biFJE.

 15 Educação ambiental na prática – Ver de perto o desenvolvimento das plantas, da germinação à decomposição, é muito melhor e mais eficaz do que aprender sobre os ciclos da natureza numa sala de aula ou num livro. Além de uma universidade viva de botânica, as hortas são excelentes locais para estudar o ciclo da água e a microfauna, entre muitos outros temas.

16 Educação nutricional – Como na TV não passa anúncio de brócolis e abobrinha e o “estilo de vida moderno” afastou muitas famílias dos alimentos na forma natural, existem crianças hoje em dia nunca viram um pimentão ou uma cenoura. Para ter uma ideia dos riscos da alimentação industrializada para as próximas gerações, sugiro assistir o documentário Muito Além do Peso (http://www.muitoalemdopeso.com.br/). Para ver como a agricultura urbana pode inverter esse jogo, sugiro ler American Grown (de Michelle Obama) e Edible Schoolyard (de Alice Waters). Ou simplesmente dar uma voltinha na horta comunitária mais perto de você.

17 Promoção da segurança alimentar – Nossos antepassados sabiam conseguir comida sem ter que comprar. Praticamente toda a humanidade era composta de camponeses. Esses conhecimentos foram sendo desprezados nas últimas décadas e, diante da  perspectiva de crise econômica e ambiental, reavivá-los pode ser muito útil. Se você não gosta de conversa apocalíptica, favor voltar ao item anterior: segurança alimentar não é só ter o que comer, é também saber escolher os alimentos corretamente.

18 Integração agricultor/consumidor – Quem planta comida, mesmo que seja em três vasos no quintal, se torna curioso a respeito da origem dos alimentos que consome. E se sente irmanado aos agricultores: quer saber mais, tem vontade de visitar e apoiar os produtores, busca alimentos  cultivados de forma mais justa e sem uso de fertilizantes químicos e agrotóxicos. Junto com as hortas urbanas que surgem nos bairros de classe média de São Paulo estão nascendo muitas conexões e até amizades com agricultores próximos da metrópole. Um ciclo virtuoso e nutritivo de cuidados mútuos.

PARA SABER MAIS

  • A cidadezinha de Tordmorden, na Inglaterra, ficou famosa porque tem hortas comunitárias em todos os cantos, até na delegacia e no cemitério. O pessoal de lá registrou dicas para quem quer replicar a experiência.
    http://www.shareable.net/blog/10-steps-toward-an-incredible-edible-town
    1) Comece com o que vc tem e não com o que vc não tem;
    2) Não faça um plano estratégico;
    3) Não espere por permissão;
    4) Simplifique;
    5) Deixe a existência da horta divulgar o movimento e provocar diálogos;
    6) Faça conexões;
    7) Comece agora, pensando duas gerações adiante;
    8 ) Redescubra talentos esquecidos;
    9) Reconecte pequenas empresas e artesãos com os consumidores;
    10) Redesenhe sua cidade.
  • Aqui no Brasil, nós, do grupo Hortelões Urbanos (https://www.facebook.com/groups/horteloes/), fizemos esse
    ROTEIRO COLABORATIVO PARA UMA HORTA COMUNITÁRIA
    1) Encontre um espaço disponível;
    2) Procure parceiros;
    3)Converse com os vizinhos;
    4) Vá com a turma visitar as hortas comunitárias que já existem;
    5) Junte os voluntários para desenhar e planejar a horta que será construída;
    6) Consiga sementes, mudas, composto orgânico, enxadas, pazinhas de jardinagem, folhas secas, material para delimitar os canteiros e fazer plaquinhas;
    7) Realize o primeiro mutirão;
    8 ) Monte uma escala de trabalho para regas e manutenção;
    9) Crie uma forma de contato para outras pessoas se comunicarem com o pessoal da horta (blog, e-mail, grupo no Facebook, o que preferirem);
    10) Celebre a abundância e a solidariedade.

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129. Happy Hours Urbanas

Segunda-feira tem encontro na Câmara Municipal para tentar entender (e influenciar) o indecifrável Plano Diretor de São Paulo. Burocracias à parte, o bom mesmo está sendo trabalhar nas hortas comunitárias de São Paulo.

Muito tem se falado sobre o novo Plano Diretor de São Paulo. De um lado,  protesta quem acredita que a cidade está sendo (mais ainda) vendida para o mercado imobiliário. Do outro, há os que vêem no plano tentativas de reduzir desigualdades sociais e territoriais, mas sem instrumentos de controle eficientes há sim o risco de a cidade ser (mais ainda) vendida para o mercado imobiliário e  blá-blá-blá.

Para quem não sabe, o PDE (para os íntimos) é um calhamaço de 600 páginas que o executivo entregou ao legislativo para aprovação. Não li nem pretendo ler. Mesmo sabendo da importância do tema, tendo economizar energia ao lidar com ele. Vendo caos por toda a parte, não acredito muito em soluções planificadas e centralizadas. Estou preferindo mergulhar nesse caldo urbano imperfeito e semear umas gentilezas por aí, tentando encontrar frestas no sistema para a cidade literalmente florir e frutificar. E é com isso na cabeça que trabalho como voluntária na Horta das Corujas (Vila Madalena) e Horta do Ciclista (Av. Paulista).

Voltando ao PDE, supostamente o processo foi participativo incorporou as sugestões encaminhadas pelos cidadãos em audiências prévias e pelo site http://gestaourbana.prefeitura.sp.gov.br/. Eu mesma fiz algumas propostas e não sei o aconteceu com elas e com outras milhares que a galera enviou. Bom, agora está começando uma série de audiências devolutivas (várias temáticas e uma em cada subprefeitura) para explicar isso.

Com a melhor das intenções, os vereadores Ricardo Young e Police Neto convidam para um  encontro na segunda-feira das 18h30 às 21h30 (local: Câmara Municipal) para discutir o Plano Diretor de São Paulo com os coletivos que estão colocando a mão-na-massa para melhorar a cidade. Sim, ainda dá para mexer no PDE.  A discussão vai abordar sobretudo o capítulo Gestão Democrática do Plano Diretor.  Só que eu já li duas vezes o tal capítulo (só esse e já foi mais que suficiente) e ainda não entendi como a população vai participar do plano. Os únicos dados que meus atordoados neurônios conseguiram extrair é que haverá uma Conferência Municipal da Cidade de São Paulo, será criado o Conselho Municipal de Política Urbana, virão mais audiências públicas etc e tal. Mas não sou bom parâmetro de entendimento para burocracia. Na verdade, fico totalmente disléxica diante desse tipo de texto. Vou lá na Câmara segunda-feira em busca de alguma luz.

Falando em luz, enquanto os poderosos se digladiam para abocanhar o direito de construir e lucrar mais, acredito que o acesso aos raios de sol, às árvores, às praças, ao ar puro, ao silêncio e a ver o horizonte são prioritários. Vai ser uma luta conseguir cacos de verde dignidade urbana na selva de concreto.

De resto, faço minhas as palavras do urbanista João Sette Whitacker: “Não acredito muito em planos diretores. Acabam envolvendo um enorme esforço de técnicos bem intencionados, a mobilização de milhares de munícipes, disputas acirradas entre vereadores, mas no fim resultam num compendio de regras urbanísticas que ninguém segue, ou se segue, o faz apenas nas partes que interessam aos setores que transformaram nossas cidades em um palco exclusivo de negócios… Já que a revisão do plano de São Paulo está ai, enviada à Câmara temos que engrossar o esforço dos que se debruçarão sobre ele, para depois, provavelmente decepcionar-nos pelo esforço inútil.“

O bom mesmo vai ser encontrar um monte de gente legal e fazer contatos para fortalecer a rede de pessoas que está se divertindo muito ao tentar transformar a cidade. Aliás, amanhã (sábado) vou capinar um pouco a Horta das Corujas (mapa aqui: http://hortadascorujas.wordpress.com/sobre-a-horta/) e domingo a partir de 12h estaremos trabalhando na Horta do Ciclista (Av. Paulista entre Consolação e Bela Cintra, no canteiro central). Se quiser, apareça!

Dica de leitura para quem quer aprofundar no tema: http://cidadesparaquem.org/blog/2013/8/18/um-plano-diretor-pode-mudar-a-cidade

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128. Cidade em Movimento

Uma pesquisa e opiniões de especialistas mostram uma revolução em curso no mundo dos transportes paulistanos. Ao que parece, a Carrocracia está com os dias contados.

Abaixo um resumo (com meus comentários) da pesquisa sobre mobilidade em São Paulo que a Rede Nossa São Paulo encomendou ao Ibope e foi divulgada em 16/09/2013 . Dados completos aqui: https://www.facebook.com/events/606105722766287/

  • Os paulistanos que usam automóvel diariamente (ou quase diariamente) para se locomover são apenas 27%. E basta uma olhada para os espaços públicos para constatar que a paisagem foi totalmente dominada por essa minoria (da qual ainda faço parte).
  • Contando deslocamento por deslocamento, o meio de transporte mais comum é a caminhada (54%) seguida por ônibus (24%), carro (14%), metrô (12%), lotação (9%), trem (8%), moto (3%) e bicicleta (2%).
  • Cerca de 50% das residências paulistanas contam com carro na garagem. Entre as famílias motorizadas, 80% possui apenas um veículo. 17% dois. Os multiveiculares são apenas 3%.
  • 47% dos paulistanos gasta entre 1 e 2 horas por dia para ir e voltar de sua atividade principal. A média chega a espantosos 2h15 se forem computados todos os deslocamentos.
  • Evangelina Vormittag, do Instituto Saúde e Sustentabilidade, lembrou que o modelo rodoviarista é o principal problema ambiental e de saúde de São Paulo. Além da poluição atmosférica (que mata mais do que cigarro por aqui), contribui para ilhas de calor, contaminação do solo, colisões e atropelamentos, sedentarismo forçado e poluição sonora. Para quem se interessa pelo assunto, um evento inteirinho sobre isso na próxima segunda-feira às 18h, na Câmara Municipal. (Inscrições aqui: http://viradadamobilidade.wordpress.com/programacao/palestras/inscricao-mobilidade-urbana-e-qualidade/)

A melhor notícia: o Império do Automóvel está com os dias contados.

  • 79% dos motorizados deixariam o carro em casa se tivessem uma boa alternativa de transporte público. Quanto a isso, tenho observado algo curioso: muitas pessoas que dizem essa frase nunca experimentam fazer seus trajetos cotidianos de ônibus ou metrô. Obviamente, a qualidade geral desse serviço é ruim na cidade. Mas existem horários e percursos muito bem servidos por transporte público e falo isso por experiência própria.
  • 93% são a favor da ampliação das faixas exclusivas de ônibus (86% entre os usuários freqüentes de automóvel). De acordo com Jilmar Tatto, Secretário Municipal dos Transportes, é para lá que vamos. Ele disse: “São Paulo tem hoje 120km de faixas exclusivas para ônibus e pretendemos implantar mais 150 km até 2016. O ideal seria chegar em 460km”. Analisando a fala completa do secretário,  percebi que, tecnicamente, transporte de larga escala seria atribuição do metrô, mas é quase impossível São Paulo chegar perto de Paris, que tem uma estação quase em cada esquina na região central. Vamos quebrar o galho com ônibus mesmo.  E os planos imediatos da prefeitura incluem uma reforma do sistema e até mesmo ações ousadas como um concurso para criação de aplicativos que ajudem o usuário a saber em tempo real quando chegam e para onde vão os ônibus que passam no ponto onde ele está .
  • 56% são favoráveis à proibição total de estacionar no centro expandido, 49% aprovariam o aumento do rodízio para 2 dias na semana e 45% aceitariam de bom grado um imposto sobre os combustíveis para financiar o transporte público.

Podemos comemorar o fato de que boa parte dos paulistanos pretende dar sua contribuição individual em prol de uma melhoria coletiva, não é? Mas a mudança de cultural ainda precisa avançar muito.

“Não dá para pensar em mobilidade sem pensar em habitação”, afirmou Maurício Lopes, promotor do Ministério Público. De acordo com ele, para reduzir a necessidade de deslocamento mais empregos são necessários na periferia e mais habitações populares no centro. Por outro lado, estou acompanhando algumas discussões do Plano Diretor em que associações de moradores de bairros residenciais resistem ao adensamento em torno de eixos de transporte proposto pela prefeitura. Concordo que o tema é polêmico e que as alterações nas normas de uso do solo precisam ser muito cuidadosas. Mas não dá para querer preservar a todo custo quarteirões canadenses em meio a um padrão africano de urbanização. Teremos que negociar, repensar, buscar a melhoria da cidade para todos, o que significa inclusive diminuir a desigualdade territorial.

“Uso bastante transporte público e cada vez mais eu acho de mau gosto sair de casa de carro. Compre seu carro, mas no dia-a-dia deixe na garagem. Melhor usar só no final de semana, para viajar ou em casos especiais”. Quem falou isso foi o próprio Jilmar Tatto.

Estamos ou não num mundo novo? Nem tanto… Enquanto escrevia sobre poluição, ilhas de calor e mudanças culturais, minha vizinha veio pedir que eu derrube uma árvore que está em meu terreno para que as folhas não caiam na casa dela.

Não resisto a acrescentar esse mapa de caminhadas feito pelo pessoal do Sampa a Pé. Vamos nessa, ocupar as ruas sem motores!



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127. O que será feito com o lixo de São Paulo nos próximos 20 anos?

Para descobrir a resposta e tentar interferir nos rumos da metrópole, participei da 4ª Conferência Municipal do Meio Ambiente como representante (eleita) da população do subdistrito de Pinheiros.

Foram três dias de muito trabalho e aprendizado. Em primeiro lugar, me chamou a atenção que o engajamento dos cidadãos das regiões periféricas era bem maior. Mais adiante ficará claro o motivo. O encontro abordou unicamente o Plano de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos da Cidade de São Paulo. Não começamos do zero. Muito ao contrário, todas as discussões se pautaram por um documento de 60 páginas escrito a partir de reuniões realizadas nas 31 subprefeituras, oficinas temáticas, grupos de trabalho inter-setoriais e propostas da equipe técnica da prefeitura. Um processo bastante democrático, porém pouco divulgado.

Só para ter uma ideia do desafio, atualmente menos de 2% dos resíduos coletados pela prefeitura vão para a reciclagem. Mais de 98% têm os aterros como destino, o que representa um enorme problema ambiental e desperdício de recursos. A meta para 2032 é dar um fim mais nobre para 70% dos resíduos (30% continuarão indo para os aterros). A conferência se concentrou nas estratégias para alcançar esse objetivo, que não foi questionado.

Além dos delegados da sociedade civil, havia representantes do empresariado e do poder público. Todos com direitos iguais a voz e voto. Cada delegado poderia escolher uma sala temática e lá fui eu para a dos Resíduos Orgânicos, ou seja, tudo aquilo que a natureza produz e, se deixarmos, ela mesma sabe reciclar lindamente transformando em adubo. Estou falando de restos de comida, podas de árvore, talos, caroços, folhas secas, madeira, serragem etc que representam 51% do lixo produzido em SP. Assunto totalmente ligado à agricultura urbana e às hortas comunitárias, já que usamos exclusivamente composto orgânico e esterco como adubo.

Fechados numa sala sem janela durante todo o sábado de sol, debatemos e alteramos as 23 diretrizes, objetivos, estratégias e metas apresentadas para os orgânicos que, no documento final, se tornaram 31. Nada fácil abdicar do fim de semana para trabalhar duro e sem remuneração em prol do coletivo, mas a oportunidade de propor mudanças no texto da lei e ver que elas foram realmente incorporadas compensou o esforço.

Logo no início dos trabalhos, percebi que valeu a pena participar desde 2012 do Grupo Pró-Viabilização da Compostagem em São Paulo, uma rede de pessoas interessadas em promover essa prática e não uma ONG ou grupo institucionalizado. Graças em parte à nossa militância em favor da compostagem, tanto no Programa de Metas da gestão Haddad quanto nesse PGIRS (sigla do tema da conferência), ganhou força a ideia de que a cidade deve compostar aqui mesmo os resíduos orgânicos que gera. A discussão passou a ser sobre a melhor forma de fazer isso.

Nesse ponto abandono o relato do evento para refletir sobre os próximos passos. Quem tiver interesse pode ler todo o PGIRS, que será disponibilizado e colocarei o link aqui.

Um ponto importante do plano é que São Paulo em breve vai ganhar quatro grandes Centrais de Processamento da Coleta Seletiva (para os resíduos industrializados) e imensas Unidades de Compostagem. Ou seja, de modo geral o município adotará  soluções macro para seu lixo nos próximos 20 anos.  Isso implica em investimentos volumosos, caminhões de coleta que continuarão circulando intensamente e concentrar as concessões em grandes empresas.

A opção pela larga escala, que os técnicos da prefeitura dizem ser incontornável, na minha opinião tem maior risco de prejudicar a qualidade do produto final. Explico usando como exemplo os resíduos orgânicos: quanto maior a quantidade, mais difícil o controle. Aqui em casa, tomo precauções máximas com a compostagem porque ela vai gerar o adubo para a minha horta e eu vou comer os alimentos que vierem dela. Mas quem garante que a população será extremamente cuidadosa se continuar podendo jogar o que quiser num caminhão que vai embora para longe? E se, por descuido ou má intenção, contaminantes como carcaças de animais, pilhas, baterias e outros produtos tóxicos forem depositados junto com o lixo da cozinha? Uma única lata de tinta  poderia contaminar mais de uma tonelada de composto orgânico. Quais mecanismos seriam adotados para impedir que isso aconteça?

Outro ponto muito delicado: a centralização das soluções do lixo gera injustiças territoriais. Nas regiões mais ricas, onde a produção de resíduos é maior, não há aterros e provavelmente não serão instalados centros de triagem ou de compostagem. Moro em Pinheiros e os caminhões de coleta levam embora tudo o que recolhem aqui. Mas o distrito de São Mateus, na Zona Leste, já possui quatro aterros e agora está em estudo a instalação do quinto. Aliás, nos bairros “bons” da cidade, todo muito acha ecochique reciclar, mas a população sequer admite que cooperativas de catadores se instalem.

Pessoalmente, sou uma adepta da descentralização de tudo, baseada na filosofia do Small is Beautiful (que explico nesse post: http://conectarcomunicacao.com.br/blog/49-beleza-pequeno/) . E da extinção do lixo, baseada na ideia do movimento Do Berço ao Berço (http://conectarcomunicacao.com.br/blog/85-prxima-revoluo-industrial/).  Acredito que embalagens descartáveis não deveriam existir, com exceção do papel e papelão impresso com pigmentos vegetais, que vira adubo facilmente. Que todos deveriam compostar seus resíduos orgânicos. Que os supermercados deveriam vender a granel e os líquidos serem transportados em vidros retornáveis. Mas quando digo isso para amigos e empresários, a resposta em geral é: “Isso é impossível, não é prático, dá trabalho, ia complicar muito os negócios.” Desconfio que essa opinião mudaria radicalmente caso o tratamento do lixo ocorresse obrigatoriamente no local onde foi gerado. Se as garrafas PET, as fraldas descartáveis, as latas, os aparelhos eletrônicos quebrados e tudo mais tivesse que ser processado do lado da nossa casa, tentaríamos ao máximo não gerar lixo, não é? E o catador de materiais recicláveis seria o herói da vizinhança.

No ano que vem haverá revisão do Plano de Metas da prefeitura. Daqui a quatro anos, o PGIRS será revisto. A partir de agora, estou me aliando a quem tiver interesse em batalhar pela seguinte causa: BUSCAR SOLUÇÕES PARA QUE PROGRESSIVAMENTE OS RESÍDUOS ENCONTREM DESTINAÇÃO ADEQUADA (POR COMPOSTAGEM, PREPARAÇÃO PARA RECICLAGEM OU TRATAMENTO DE REJEITOS) DENTRO DAS FRONTEIRAS DE CADA BAIRRO.

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126. Sempre o lixo

Informações interessantes e muitas dúvidas quando o assunto é reciclagem.

São Paulo terá sua 4ª Conferência Municipal de Meio Ambiente de 30 de agosto a 1º de setembro, em que participarão representantes da sociedade civil, do poder público e do empresariado. Eu me candidatei a delegada e, numa votação em que havia mais vagas do que pretendentes, ganhei a incumbência. (Quando escrevo que sou delegada fico me  imaginando com uma estrela de xerife pendurada na camisa, só que verde para combinar com o tema eco.)

Essa conferência terá como tema “Implementando a Política Nacional de Resíduos Sólidos no Município de São Paulo”. Então lá fui eu para um dos encontros preparatórios ouvir representantes da indústria e do Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis. Descobri Informações Interessantes (INF. INT) e fiquei com mais Dúvidas (???) do que já tinha sobre a viabilidade econômica e ambiental da reciclagem. Vamos a elas:

INF. INT - De acordo com André Vilhena, o representante da CEMPRE (Compromisso Empresarial para a Reciclagem), um grande entrave para o setor é a carga tributária sobre o produto reciclado. A Confederação Nacional da Indústria está pedindo ao governo revisão desses tributos e, de quebra, um acordo que beneficie as embalagens de modo geral.

??? - Peraí, estão falando em embutir incentivos a embalagens descartáveis na conversa da Política Nacional de Resíduos Sólidos, que prioriza a redução da produção de lixo e a reutilização de materiais? Será que ouvi direito?

INF. INT - O representante da Abividro (Associação Técnica Brasileira das Indústrias Automáticas de Vidro), Lucien Belmonte, afirmou que a entidade garante a retirada e reciclagem do vidro, desde que a quantidade oferecida seja acima de 4 toneladas e o local esteja a menos de 130 de uma das fábricas afiliadas. Também confirmou o interesse da indústria em reciclar 100% do vidro, pois a emissão de gases do efeito estufa nesse caso é menor do que a fabricação a partir de matéria prima retirada da natureza. De acordo com ele, mais da metade do consumo de embalagens de vidro no país se concentra em bares, hotéis e restaurantes, que ainda não montaram um sistema de logística reversa. Ainda comentou que cerca de 30% da vodca e do uísque consumidos no país é falsificado, pois as embalagens separadas para a reciclagem muitas vezes tomam o mau caminho.

??? – Simplesmente o fabricante da bebida recolher, lavar e recolocar a mesma garrafa no mercado, como ocorria até uns 30 anos atrás, não é muito mais sensato do ponto de vista econômico e ambiental? Por que não se investe nessa alternativa?

INF. INT - Hermes Contesini veio falar em nome da Abipet (Associação Brasileira da Indústria do PET). Revelou que 90% do PET consumido no Brasil embala refrigerante, água mineral e óleo de cozinha. A reciclagem vem crescendo, mas empaca na dificuldade de recuperar o plástico que foi para o mercado e acaba no lixão ou aterro sanitário. Cada brasileiro está consumindo em média 3 kg de PET ao ano e nos Estados Unidos são cerca de 8 kg. Por isso, a indústria estima que o mercado ainda está em expansão. Para completar uma tonelada de PET são necessárias aproximadamente 20 mil garrafas (descobri no site da CEMPRE que a indústria paga cerca de R$ 1.700 por essa quantidade, desde que devidamente limpa e prensada). A indústria têxtil é a que mais consome PET, pois o material foi desenvolvido inicialmente para substituir o algodão em tempos de penúria pós-guerra. O Japão é um grande consumidor de PET, mas não recicla absolutamente nada. Envia todo o resíduo para a China, que o transforma em roupa barata para exportação. A Anvisa não está liberando o PET reciclado para embalagem de alimentos. Há apenas um projeto de transformar garrafa em garrafa atualmente acontecendo no Brasil: o Bottle to Bottle do Guaraná Antarctica (http://www.ecodesenvolvimento.org/posts/2012/novembro/guarana-antarctica-lanca-embalagem-brasileira ).

??? – Quer dizer que a indústria está sonhando em mais do que duplicar o consumo de PET no Brasil? Com isso as praias vão ficar ainda mais forradas de plástico do que já são? Quer dizer que aquela roupitcha baratinha da José Paulino é feita com lixo japonês? Por que será que a Anvisa não quer liberar o PET reciclado para embalagens? Quais seriam os riscos para a saúde? A dificuldade em recuperar o PET para a reciclagem não seria devido ao preço baixíssimo que a indústria paga pelo material (200 garrafas limpas, prensadas e amarradas = R$ 17)?

INF. INT: Luzia Honorato, do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, contou que os catadores não conseguem sobreviver apenas da venda do material. Pelo vidro, por exemplo, estão conseguindo cerca de R$ 0,10 por quilo. Para viabilizar a atividade é preciso que os trabalhadores sejam remunerados também pelo serviço de coleta e separação dos materiais. Os caminhões de coleta da prefeitura compactam a carga de modo que quase 50% fica impossível de reciclar. Isso tudo vai para os aterros, apesar do esforço das pessoas em limpar e separar em casa. Sistemas de coleta alternativos ou a entrega voluntária do material em cooperativas e supermercados são opções melhores. Ainda há ignorância e desrespeito em relação à coleta seletiva e até cadáveres de animais de estimação apodrecidos chegam com frequência às cooperativas. A Lei de Zoneamento do município não permite a instalação de cooperativas praticamente em local algum.

??? – Já que o dinheiro que recebem com a venda do material reciclável é irrisório, quem vai pagar o salário de que os catadores precisam para viver? Se a maioria das pessoas acha a reciclagem uma solução mágica para o problema do lixo, por que as cooperativas não conseguem espaço para se estabelecer na cidade?

INF. INT - Lá pelas tantas, Rachel Moreno, ativista e nova amiga, que estava na plateia, questionou um dos palestrantes dizendo que até  70% do preço de um produto corresponde à embalagem (informação que ninguém contestou).

??? – Por que ainda existe embalagem descartável?

Ótima entrevista do professor Ricardo Abramovay sobre o tema: http://cbn.globoradio.globo.com/colunas/cidades-sustentaveis/CIDADES-SUSTENTAVEIS.htm#ixzz2bTo6SbP3

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125. Vida louca, vida linda

Parece que toda a diversidade humana resolveu visitar a solitária jardineira que cuidava de uma horta na Avenida Paulista em plena terça-feira à tarde.  

Por causa do post anterior, teve gente perguntando se eu ia fechar o blog ou estava com algum problema sério. Nada disso. É que as manifestações de junho trouxeram tanta cacofonia de opiniões que resolvi ficar quieta um pouco.

Para falar a verdade, ultimamente tenho me dedicado mais à agricultura do que à escrita. Descobri que, empunhando a enxada, a gente aprecia o mundo de outra forma, assim como provoca reações diferentes. Sobretudo se a roça em questão fica no canteiro central da Avenida Paulista entre a Consolação e a Bela Cintra: a Praça do Ciclista. Ali, ponto dos mais muvucados na megalópole insana, existe uma horta comunitária desde 12 de outubro de 2012. Trata-se do frágil jardim comestível que, no entanto, já sobreviveu ao Réveillon, à Parada Gay, à guerra entre manifestantes e polícia nos momentos mais tensos dos protestos de junho e a muitos outros encontros de multidões reivindicadoras e anárquicas. Além de cotidianamente servir de abrigo noturno para moradores de rua. Pois bem, a horta nunca foi pisoteada. E a praça ficou muito mais limpa depois que ela chegou.

Um pequeno grupo de voluntários, do qual faço parte, se reveza na manutenção diária. E no primeiro domingo do mês a partir do meio dia acontecem os mutirões, onde nos encontramos para dar um trato mais caprichado na microlavoura e confraternizar.

Hoje, 16 de julho de 2013, uma terça feira qualquer e quase milagrosamente calma, foi a minha vez de cuidar da Horta do Ciclista (http://pt.wikiversity.org/wiki/Horta_do_Ciclista).  Ver a cara das pessoas quando a gente atravessa a Paulista carregando esterco e enxada já vale o programa. Mas o melhor veio depois. Na chegada conversei com uma mineira sorridente que nunca tinha ouvido falar em horta comunitária e ficou maravilhada porque qualquer um pode colher. E pode mesmo! Os manjericões, por exemplo, estão lindos e precisando de uma poda radical. Isso significa que a matéria prima para um belo pesto está ali esperando o cozinheiro aparecer. Vc se habilita?

Enquanto adubava os canteiros, skatistas arrepiavam no cimento. Aí passou um ciclista com máscara antipoluição perguntando se pode plantar cannabis (expliquei que não, pois pode dar rolo e inviabilizar todo o projeto). Mãe e filha sentaram na mureta em clima de contemplação e a três metros dali se acomodou um casal meio punk aos amassos. Quando eles foram embora apareceram duas meninas para fumar cannabis e ofereceram. Agradeci a gentileza, mas declinei alegando estar no serviço. Depois veio um cara oferecendo muda de ora-pro-nobis (recusei porque a planta fica muito grande e é espinhuda demais para uma horta tão pequena). Então ele respondeu que volta lá alguma hora para plantar um lance parecido com malva que não guardei o nome. Uma velhinha investigou várias plantas com cara de conhecedora de horticultura, mas se mandou sem conversa.

Fui até o estacionamento em frente preparar a rega. Essa horta, aliás, só existe graças à boa vontade dos manobristas, que armazenam nosso equipamento em seu minúsculo banheiro (dois baldes, um regador e uma enxada) e ainda liberam a água. Ao destrancar a torneira, a caixa do estacionamento explicou que os noias vão lá toda hora pedir para tomar banho de esguicho. Enquanto isso, a delegação de jovens de Milão que vieram ao Brasil encontrar o Papa Francisco passou cantando e com bandeiras imensas da Itália. Ao mesmo tempo, uma manifestação de um monte de gente vestida de branco (depois descobri que eram médicos querendo garantir a reserva de mercado) fechava a Rua da Consolação.

Luciano Santos, advogado que tem escritório em frente e é um dos principais guardiões da horta, adentrou portando terno e gravata para a gente trocar uma ideia sobre como lidar com as lagartas do maracujá. Sim, em breve teremos borboletas nativas! Atravessei a rua umas 10 vezes carregando água, reguei tudo e missão cumprida. De carro na Paulista vi pelo retrovisor um grupinho PMs circundando uma motociclista acidentada cinco metros atrás. Ela levantou e sacudiu a poeira (ufa, nada grave).

Só mesmo a necessidade de carregar sacos e sacos de adubo me convence a ir dirigindo para a avenida mais famosa da cidade.  E enquanto aguentava o trânsito na volta, só conseguia pensar na loucura e maravilha que é o mundo. Não fiz foto porque sou uma das únicas pessoas desse universo que não anda por aí com máquina e não consegue tirar foto com o celular. A que ilustra o post é dessa horta mágica, alguns meses atrás.

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124. Uma pausa para a revolução

Há bastante tempo eu vejo tudo fora de lugar. As prioridades dos governantes, as regras do mercado de trabalho, o consumismo, o ensino, a medicina, a obsolescência programada, o desperdício, a publicidade, o artificialismo, o sistema agroalimentar e a opção preferencial pelos automóveis, só para citar alguns dos absurdos cotidianos.

Acho que comecei a plantar por causa disso. Diante de problemas tão gigantescos, conseguir colher um pimentão sem agrotóxico no quintal e ajudar outras pessoas a produzir pelo menos uma pequena parte de sua própria comida me dá muito alento. Quero fazer parte das mudanças, mas prefiro a transição à ruptura. Sou a favor da metamorfose gradual, porém radical, dos rumos da nossa civilização.

Diante dos fatos das últimas semanas, percebo de forma cada vez mais evidente o colapso das estruturas atuais. E uma nova sociedade surgindo em meio ao caos.

Para dar passagem à polifonia do mundo e também à necessidade de reflexão e de ação da autora, esse blog silencia por enquanto. Será um curto período sabático (algumas semaninhas apenas), em que já estou me dedicando a germinar diversos novos projetos.

Nos 123 posts anteriores, que ficam à disposição, procurei registrar os sinais de transformação que já se anunciavam e alinhavar informações que podem ser úteis para quem pretende caminhar pela vida com simplicidade, em cooperação mútua e com respeito por todas as formas de vida.

Até breve!

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122. A Revolução da Comida chegou!

Food Revolution Day, o “feriado” que o cozinheiro inglês Jamie Oliver inventou, é nessa sexta-feira, 17 de maio. Veja como e por que é importante participar do movimento.  

Pai de quatro e prestes a completar 38 anos, Jamie continua com jeito e energia de garoto. Mas é bom levar a sério o que diz: “Nossas crianças estão crescendo obesas e desnutridas por causa do consumo de alimentos processados e esta será a primeira geração em muito tempo a viver menos do que os próprios pais. É hora de mudar. Precisamos de uma revolução alimentar”.

Pois a tal revolução ganhou o nome de Food Revolution Day, um dia de mobilização mundial em prol dos alimentos saudáveis e do ato singelo de cozinhar (de acordo com ele, uma das coisas mais importantes a aprender na vida). O primeiro FRD aconteceu em 19 de maio do ano passado, um sábado, reunindo mais de mil eventos em 664 cidades espalhadas por 62 países do mundo. A Revolução da Comida 2013 foi marcada para 17 de maio, sexta-feira, mas as atividades organizadas espontaneamente aqui no Brasil acabaram extrapolando a data e agora teremos todo um final de semana dedicado ao tema.

Jamie Oliver é disléxico e teve muitos problemas de aprendizagem. Cresceu na pequena Clavering, ajudando os pais no pub da família. Com 16 anos foi estudar culinária. Em 1997 era aprendiz na cozinha do badalado River Café, em Londres, quando apareceu por lá uma equipe de filmagem. Jamie fez tanto sucesso no documentário que rapidamente ganhou um programa próprio e virou celebridade televisiva. Decidiu usar sua fama em prol de uma boa causa: melhorar a alimentação sobretudo das crianças. Horrorizado com o universo do  junk food , ele foi à luta contra a propaganda intensiva, os brindes irresistíveis, a aparência artificialmente ultracolorida, as embalagens pop, as texturas crocantes à base de gordura trans e sabores ressaltados por aditivos químicos dos produtos alimentícios.  Sua fundação (http://www.jamieoliver.com/foundation/)  empurrou o  governo britânico a mudar alguns parâmetros culinários para os colégios, obrigando-os a:

• ensinar conceitos básicos sobre nutrição, dieta e confecção dos alimentos, para que os alunos façam escolhas acertadas ao longo da vida;

• incluir frutas e hortaliças frescas no menu diário;

• substituir doces por pão, refrigerantes por água e batatas fritas por amêndoas e outros frutos secos;

• limitar as quantidades disponíveis de sal, ketchup e maionese;

• oferecer no máximo de duas porções de alimentos fritos por semana.

A programação do Food Revolution Day 2013 de São Paulo, Rio de Janeiro e Novo Hamburgo você encontra nesses links:
http://alimentopuro.synthasite.com/food-revolution-day.php
http://www.youtube.com/watch?v=wN9aFdgxHW0

Mais do que bem-vinda, a Revolução da Comida é urgente em nosso país. Quem ainda duvida precisa dar uma olhada no documentário Muito Além do Peso (http://www.muitoalemdopeso.com.br/).

Quer assinar a petição online internacional de apoio ao movimento? Vai lá: http://www.jamieoliver.com/us/foundation/jamies-food-revolution/sign-petition

E  fica o convite para assistir o próprio Jamie explicando por que criou o Food Revolution Day ( http://www.youtube.com/watch?v=zA83ASHriAM).

Por mim, esse dia seria um feriado mundial diferente. Todos faríamos nossas atividades cotidianas comuns, mas com o desafio de cozinhar com as refeições com as próprias mãos, usando apenas  ingredientes frescos, saudáveis e, se possível, orgânicos.

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121. Comida de verdade, tempo e lugar

Vamos respeitar a safra dos alimentos, dar preferência àqueles que foram produzidos na região e cozinhar com ingredientes frescos (se possível, orgânicos)?

Décadas atrás, deixamos de ver o almoço crescer, ciscar e pastar no quintal ou num sítio a poucos quilômetros de casa. Pouco a pouco, fomos esquecendo que a comida nasce da terra e passamos a achar que seu berço é aquela embalagem de isopor, plástico ou metal na gôndola do supermercado. Daí a desconsiderar totalmente que os alimentos têm safra foi um pulo.

Mas comida de verdade* continua com tempo certo de aparecer. E de desaparecer. Se conseguirmos reaprender isso, comeremos melhor e deixaremos de pressionar a agroindústria para fazer malabarismos que só prejudicam nossa saúde e a saúde do planeta. Isso porque forçar uma planta a dar frutos fora da época em geral significa usar mais adubos químicos, mais agrotóxicos, abrir mão de parte do sabor e dos nutrientes. Ou então implica em consumir algo produzido do outro lado do mundo e que veio até nós jogando muita fumaça na atmosfera, além, é claro, do desperdício aumentar exponencialmente com tantas milhas a percorrer entre o campo e a mesa.

Intuitivamente ainda temos uma noção da época de cada alimento. Abacaxi e manga são frutas de verão. Morango e tangerina, de inverno. Puxando pela memória e conversando com os mais velhos dá para redescobrir a sazonalidade (para facilitar, no blog da Nadia Cozzi tem a lista dos alimentos de outono: http://alimentopuro.blogspot.com.br/2013/04/frutas-e-hortalicas-de-outono-em-todo-o.html).

Então fica o convite para desprezar as embalagens coloridas dos milhares de produtos alimentícios industrializados feitos basicamente de açúcar, sal, farinha, gordura ruim, leite de má qualidade e carnes idem, soja e milho transgênicos. Em vez disso, que tal cozinhar com ingredientes orgânicos da safra? De preferência vindos de perto, o mais perto possível. Quem sabe da horta no quintal ou na esquina…

Com esse cenário ecogastronômico perfeito na cabeça, dia 14/3 entrei no supermercado Pão de Açúcar da Praça Panamericana, zona oeste de São Paulo. (Antes de continuar a história, uma explicação: evito os supermercados encomendando orgânicos que são entregues em casa. Mas nem tudo consigo desse modo, então de vez em quando lá vou eu empurrar o carrinho nos corredores cheios de tranqueira). Bom, naquele dia específico chamou minha atenção um monte de camarão fresco na barraca do peixe, em pleno período do defeso do camarão nas regiões Sul e Sudeste do país. Esse tal defeso é a resposta do setor pesqueiro à Instrução Normativa 189/2008 do Ibama que proíbe a captura do crustáceo de 1º de março a 31 de maio para que a espécie possa se reproduzir (http://www.ibama.gov.br/publicadas/comeca-hoje-defeso-do-camarao-no-sul-e-sudeste).

Resolvi falar sobre o defeso com o atendente dos pescados e ele disse que os camarões dali eram de cativeiro então estavam liberados. Pedi para ver a documentação. “Está lá em cima no escritório e demora para pegar” foi a resposta. Como tinha pressa (estou sempre com pressa), fui embora. Liguei para o SAC da empresa, que informou o assunto ser da alçada do gerente da loja, mas forneceu um número de protocolo (6538942) e a promessa de entrar em contato novamente. O que não ocorreu. Passaram-se duas semanas. Fui na loja outra vez e falei com a gerente que disse que a empresa enviou um comunicado interno esclarecendo sobre o defeso e falando que os camarões são de cativeiro blá-blá-blá. Pedi para ver o documento. Ela pegou meu cartão e disse que ia retornar. Uns 10 dias depois recebi um e-mail com um anexo explicando que o camarão cinza vendido naquela loja provem de fazendas de cultivo na costa do Piauí. No entanto, a loja estava vendendo mais tipos de camarão fresco, descritos como “rosa”, “grande” e outros nomes. Questionei e a funcionária não sabia o que responder. Disse que ia se informar e retornaria. Estou esperando até agora…

De qualquer modo, toda essa história de fazendas marinhas é questionável do ponto de vista socioambiental e o movimento Slow Food vem fazendo um trabalho bacana de levantar a cortina que esconde os bastidores nada apetitosos desses empreendimentos http://www.slowfoodbrasil.com/slowfish/peixe-limpo/bem-cultivado. E, no mínimo, é bem estranho ter camarão fresco vindo do Piauí num supermercado de São Paulo. Deve chegar de avião, o que já aumenta muito sua pegada de carbono.

Acho que o defeso do camarão, assim como a época da safra das frutas, verduras e legumes deveriam ser anunciados com  cartazes gritantes em todos os mercados, feiras e restaurantes. “Não estamos vendendo camarão fresco porque está na época do defeso”. “Teremos figo novamente apenas em agosto. Aproveite as tangerinas”. “Lichia? Só perto do Natal”.  “Mês que vem começa a safra da couve-flor”.  Já pensou?

* PS – Comida de verdade são aquelas coisas vivas, sem logotipo, que apodrecem a têm nomes simples como abacate, brócolis, cogumelo, ovo e rabanete.  O resto é produto alimentício ou, como diz um amigo, antialimento.

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Dá para ser muito feliz consumindo menos.

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